Pular para o conteúdo principal

Três traduções do interesse coletivo

Na França, só se entra em cinemas e museus com prova de vacinação ou teste negativo —e logo a regra valerá para shoppings, cafés e restaurantes. Na Austrália, nova rodada de lockdowns atinge a maioria da população, enquanto a Europa volta à quase normalidade. No Brasil, prefeitos cassam o direito à imunização dos chamados “sommeliers da vacina” —e recebem aplausos de ilustres comentaristas. Interesse coletivo versus direitos individuais, em três versões. Vacinar é direito individual ou dever cívico? O governo francês decidiu-se pela segunda alternativa. Manifestações populares conduzidas pela extrema direita ou pela extrema esquerda contestam o “arbítrio estatal”, escreve Demétrio Magnoli em sua coluna na Folha de S. Paulo, publicada neste sábado, 24/7. Continua abaixo.


Há uma certa graça nas cenas de líderes extremistas, admiradores de Putin ou do castrismo, engajando-se na apologia dos direitos civis.

A diversão cessa quando eles cruzam o limite do discurso delinquente para equiparar o “passe sanitário” à marcação dos judeus com estrelas de Davi pelo regime nazista.

A resistência à vacinação estende-se por mais de um terço dos franceses e, até o advento do “passe sanitário”, a campanha de imunização seguia em ritmo inferior ao da maioria dos países europeus. O alegado direito de recusar a vacina seria pago por mais óbitos derivados da persistência da epidemia e empregos perdidos em renovadas restrições sanitárias.

Nos EUA, onde as hospitalizações concentram-se em estados com alta proporção de eleitores de Trump e baixas taxas de imunização, governadores republicanos ponderam a necessidade de imitar a lei francesa.

Ao contrário da França, na Austrália faltam vacinas. Desde o início, a ilha-continente adotou a estratégia de Covid-Zero pregada pelo fundamentalismo epidemiológico. O governo decidiu que o vírus seria eliminado por meio de lockdowns implacáveis —e, portanto, a imunização jamais figurou como prioridade.

A vida acima de tudo: sob a tradução australiana do interesse coletivo floresceram hotéis de quarentena vigiados por forças policiais e cassou-se o direito ao retorno de cidadãos residentes no exterior.

O fundamentalismo epidemiológico provou-se errado. O coronavírus resiste a qualquer lockdown e, tudo indica, mesmo à vacinação coletiva. A maioria das nações optou por conviver com o patógeno, reduzindo radicalmente os contágios e hospitalizações pela imunização em massa.

A Austrália, porém, tornou-se refém da doutrina de supressão absoluta do vírus, que vai se convertendo numa doutrina de supressão absoluta das liberdades públicas por tempo indefinido.

No Brasil, como na Austrália, ainda faltam vacinas — mas, ao contrário da França, e como atestado de mais um fracasso de Bolsonaro, a resistência à vacinação é insignificante. O interesse coletivo exige acelerar a campanha de imunização, o que se traduz no plano político pela denúncia da sabotagem governamental na aquisição de vacinas.

Mas, em busca de um lugar ao sol, diversos prefeitos trocaram de alvo, definindo cidadãos comuns que tentam selecionar vacinas como inimigos do interesse coletivo.

Os “sommeliers da vacina” não violam lei alguma quando circulam de posto em posto à procura de seu imunizante preferido —e, no fim, desistem ou tomam a vacina oferecida.

Já os prefeitos que registram seus nomes e os transferem para o “fim da fila” violam seu direito à vacinação, cujo exercício está regulado por regras impessoais de prioridade.

De fato, incorrem nos crimes de discriminação e negação de atendimento de saúde. O interesse coletivo funciona, no caso, apenas como álibi para a prática de um ato arbitrário capaz de render pontos no tribunal das redes sociais.

Na França e na Austrália, distintas traduções do interesse coletivo são amparadas por leis votadas nos parlamentos. No Brasil, a punição aplicada pelos prefeitos é puro arbítrio. Bolsonaro perdeu; o bolsonarismo vive.

Demétrio Magnoli é sociólogo, autor de “Uma Gota de Sangue: História do Pensamento Racial”. É doutor em geografia humana pela USP.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Rogério Andrade, o rei do bicho

No dia 23 de novembro do ano passado, o pai de Rodrigo Silva das Neves, cabo da Polícia Militar do Rio de Janeiro, foi ao batalhão da PM de Bangu, na Zona Oeste carioca, fazer um pedido. O homem, um subtenente bombeiro reformado, queria que os policiais do quartel parassem de bater na porta de sua casa à procura do filho — cuja prisão fora decretada na semana anterior, sob a acusação de ser um dos responsáveis pelo assassinato cinematográfico do bicheiro Fernando Iggnácio, executado com tiros de fuzil à luz do dia num heliporto da Barra da Tijuca. Quando soube que estava sendo procurado, o PM fugiu, virou desertor. Como morava numa das maiores favelas da região, a Vila Aliança, o pai de Neves estava preocupado com “ameaças e cobranças” de traficantes que dominam o local por causa da presença frequente de policiais. Antes de sair, no entanto, o bombeiro confidenciou aos agentes do Serviço Reservado do quartel que, “de fato, seu filho trabalhava como segurança do contraventor Rogério And...

Dica da semana: Nine Perfect Strangers, série

Joia no Prime traz drama perturbador que consagra Nicole Kidman  Dizer que o tempo não passou para Nicole Kidman seria tão leviano quanto irresponsável. E isso é bom. No charme (ainda fatal) de seus 54 anos, a australiana mostra que tem muita lenha para queimar e escancara o quanto as décadas de experiência lhe fizeram bem, principalmente para composição de personagens mais complexas e maduras. Nada de gatinhas vulneráveis. Ancorando a nova série Nine Perfect Strangers, disponível na Amazon Prime Video, a eterna suicide blonde de Hollywood – ok, vamos dividir o posto com Sharon Stone – empresta toda sua aura de diva para dar vida à mística Masha, uma espécie de guru dos novos tempos que desenvolveu uma técnica terapêutica polêmica, pouco acessível e para lá de exclusiva. Em um lúdico e misterioso retiro, a “Tranquillum House”, a exotérica propõe uma nova abordagem de tratamento para condições mentais e psicossociais manifestadas de diferentes formas em cada um dos nove estranhos, “...

No pior clube

O livro O Crepúsculo da Democracia, da escritora e jornalista norte-americana Anne Applebaum, começa numa festa de Réveillon. O local: Chobielin, na zona rural da Polônia. A data: a virada de 1999 para o ano 2000. O prato principal: ensopado de carne com beterrabas assadas, preparado por Applebaum e sua sogra. A escritora, que já recebeu o maior prêmio do jornalismo nos Estados Unidos, o Pulitzer, é casada com um político polonês, Radosław Sikorski – na época, ele ocupava o cargo de ministro do Interior em seu país. Os convidados: escritores, jornalistas, diplomatas e políticos. Segundo Applebaum, eles se definiam, em sua maioria, como “liberais” – “pró-Europa, pró-estado de direito, pró-mercado” – oscilando entre a centro-direita e a centro-esquerda. Como costuma ocorrer nas festas de Réveillon, todos estavam meio altos e muito otimistas em relação ao futuro. Todos, é claro, eram defensores da democracia – o regime que, no limiar do século XXI, parecia ser o destino inevitável de toda...