domingo, 31 de janeiro de 2010

PSOL na hora da decisão

Partido oriundo de um cisma no PT, o PSOL vive um momento delicado que pode marcar o seu futuro. Depois de desistir de apoiar Marina Silva, vive um dilema interessante para escolher o seu candidato à presidência. São três os concorrentes: os ex-deputados Babá e Plínio de Arruda Sampaio e Martiniano Cavalcante, o candidato de Heloísa Helena. Olhando os nomes, a escolha deveria ser óbvia: Plínio Sampaio é o mais experiente, preparado, tem história e presença na política brasileira desde a década de 1960. Só que o favorito é Martiniano, porque Helena manda no partido da mesma forma que Lula manda no PT. No fundo, o PSOL reproduz a mesma dinâmica interna do partido com o qual seus principais líderes romperam.

Não deixa de ser irônico. Plínio seria um excelente candidato em 1998, para enfrentar a reeleição de FHC, mas Lula cortou as asinhas de todos que se assanharam – Tarso Genro foi outro que articulou uma candidatura presidencial naquele ano. Hoje, Plínio não tem nenhuma motivação pessoal para se candidatar, como aliás não tinha em 98, mas é o melhor nome para a disputa e provavelmente não será o candidato do seu partido. A política tem dessas coisas, histórias de grandes injustiças. Tancredo se tornou presidente, Ulysses e Brizola jamais chegaram perto... Para não falar em Sarney e Itamar, que contaram apenas com a sorte e o destino.

Tudo somado, o PSOL também errou no timing. Enquanto todos os candidatos estão em plena campanha, embora sem assumir suas candidaturas, o partido de Helena perde tempo para decidir a questão. Se o candidato já estivesse definido, pelo menos a mídia estaria ouvindo o que ele tem a dizer. Mas parece que o PSOL prefere deixar que os outros falem... Marina Silva está adorando.

Pesquisas novas no forno

Depois do Vox Populi registrar 34% para Serra e 27% para Dilma na corrida pela sucessão do presidente Lula, nesta semana mais algumas pesquisas devem ser divulgadas, pelo que consta no site do TSE. Já há pesquisas registradas pelos institutos Sensus e Ibope. Se os números confirmarem a tendência do Vox Populi, a luz amarela vai acender no ninho tucano. Um cenário em que Dilma e Serra aparecerem colados antes do início da campanha eleitoral é tudo de ruim para Serra, até porque a petista terá mais de 60% do tempo na televisão, uma bela vantagem inicial. A aposta de Serra é no efeito recall, mas é bom lembrar que Geraldo Alckmin nem foi para o segundo turno na prefeitura de São Paulo, apesar do enorme recall que tinha em 2008...

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Alegria na doença

Blogs da ultra-direita estão exultantes com a internação do presidente Lula na madrugada de hoje. É, deve ser mesmo a última esperança desta gente... Desta vez, não vale nem a pena reproduzir aqui as barbaridades que estão sendo publicadas por lá. É um lixo só.

É a economia, estúpido!

Se não tiver crise externa no caminho, a tendência é o desemprego continuar caindo. O que singifica alguma coisa abaixo da "menor taxa da história". É um argumento e tanto para a campanha eleitoral...

Desemprego tem nova queda e volta à menor taxa da história

Taxa de desemprego fechou o ano em 6,8%, segundo o IBGE.

O desemprego registrou em dezembro sua quarta queda mensal consecutiva, e recuou para 6,8% no final do ano, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com a queda, a taxa retorna ao patamar de dezembro de 2008, quando foi a menor da série histórica do instituto, que teve início em 2002. Em novembro, o desemprego ficara em 7,4%.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Para rolar de rir

Ninguém garante um fim de noite tão engraçado como Nivaldo Cordeiro. É só ler abaixo o começo do texto. Quem quiser ler o resto espie o MSM, site em que o distinto escreve. Ao lado dele, tem coisas do arco da velha. É incrível, mas o homem é contra aumentos de salários... Nem o Justo Veríssimo, aquele personagem de Chico Anysio que dizia "quero que o povo se exploda", teria ido tão longe.

A caminho do ralo

Nivaldo Cordeiro | 23 Janeiro 2010

Os sinos de alarme já soaram com o gigantesco déficit no balanço de pagamentos verificado em dezembro, assim como nos inquietantes índices de inflação previstos para o mês de janeiro em curso.

As notícias econômicas dos últimos dias estão consumando o cenário mais sombrio que é possível visualizar. A elevação continuada do salário mínimo acima da produtividade, do salário dos funcionários públicos e dos benefícios do INSS está agora fazendo visíveis seus efeitos nefastos. A irresponsabilidade administrativa é agravada pela admissão de milhares de funcionários públicos, nas três esferas de governos. Está mais do que visível, como nunca pude ver em toda minha vida de observador, a disparidade gritante entre os salários oferecidos pelo setor público e os salários pagos pela iniciativa privada. Uma coisa sem sentido.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Obama: call Chávez!

Comentário de uma amiga do blog:

"Mais um pouco o presidente Barack Obama vai ligar para o colega Hugo Chávez para saber como é mesmo a história de fechar emissoras de TV, pois a Fox soltou comunicado dizendo que não ia transmitir o discurso do norte-americano sobre o Estado da União por causa do primeiro capítulo da última temporada de Lost."

O pior é que não se trata de piada. A Casa Branca informou hoje que Obama fará seu primeiro discurso sobre o Estado da União amanhã, 27 de janeiro, para evitar concorrência com a série, que vai ao ar no próximo dia 2.

É, pelo visto Chávez sabe das coisas...

Decifrando Lula

Primeiro, uma nota do blog de Reinaldo Azevedo. Depois o comentário deste blog:

LULA DIZ QUE GOSTAVA DE ENCHENTE “PORQUE NÃO TINHA DE TRABALHAR”. EU JURO! ELE DISSE ISSO MESMO!
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010 | 19:11

Deixo a afirmação de Lula para o divertimento de vocês. Mais tarde, na madrugada, farei algumas considerações, vamos dizer, sociológicas a respeito do assunto. E vou explicar por que esta fala explica a flopada do filme Lula, o Filho do Brasil.
Como vocês viram, Lula discursou na cerimônia em São Paulo, onde foi agraciado com a Medalha 25 de Janeiro. Num dado momento de seu improviso, ele mandou ver:
“Aqui, eu fui morar na Vila Carioca, que dava enchente todo final de ano. Não é de hoje que dá enchente. Naquele tempo, eu trabalhava nos Armazéns Gerais Colúmbia… A gente, muitas vezes, NÃO IA TRABALHAR porque a [avenida] Presidente Wilson enchia e, OBVIAMENTE EU GOSTAVA PORQUE EU NÃO TINHA DE TRABALHAR”.
Ouçam esta fala tão edificante clicando aqui.


Mais uma vez, um colunista direitoso não percebe a esperteza do presidente. É preciso sempre explicar que Lula não fala para meia dúzia de intelectuais que jamais decidirão uma eleição e se julgam "formadores de opinião". Lula fala para quem decide - e quem decide é o povão. No discurso acima, há dois movimentos muito inteligentes: primeiro, o presidente revela, ou reitera, porque até já falou sobre isto antes, que viveu o drama das enchentes na própria pele. São poucos os políticos que podem dizer isto, comprovadamente. Serra nem sabe o que é tirar água com balde, Kassab tem andando pela periferia de botas... Mesmo uma Heloísa Helena, por exemplo, não viveu a maior parte das agruras pelas quais Lula passou. Quando o presidente fala, portanto, é com conhecimento de causa e o povão absorve, não soa falso.

Em segundo lugar, Lula diz que tinha o "lado bom" da enchente - não era preciso ir trabalhar. Ora, é exatamente isto que qualquer operário ou trabalhador da construção civil pensa, porque não há nenhum glamour em trabalhar nessas atividades - é de sobrevivência que se trata, não de gosto pelo ofício. Mesmo técnicos intermediários, como gerentes de bancos, funcionários de médio escalão em empresas públicas ou privadas, também têm este tipo de visão sobre o trabalho - é sempre melhor faltar do que estar no escritório batendo cartão. Lula não falou para os que gostam de seus trabalhos, mas para a imensa maioria que apenas tolera o meio de ganhar o pão de cada dia. Mas é deveras exigir demais que gente como Reinaldo Azevedo entenda este tipo de estratégia do presidente. O que ele faz é tentar provar que Lula "nunca trabalhou"... Dá até pena.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Despedida do Observatório e o Entrelinhas

Abaixo, artigo do autor deste blog para o Observatório da Imprensa. Para esclarecimento dos leitores fiéis do Entrelinhas, que certamente notaram uma queda na frequência de posts e comentários neste espaço. De fato, o blog vai ganhar uma nova dinâmica neste ano, com mais comentários noturnos e durante os finais de semana, em função das novas atividades do autor na FSB Comunicações. Vamos continuar por aqui, mas por enquanto sem acompanhamento em tempo real das notícias políticas, com foco em notas mais analíticas e atemporais. Especialmente no começo, novos desafios demandam que as energias sejam canalizadas para eles, de maneira que o leitor do blog pode ficar tranquilo: com o tempo, as coisas se assentam o ritmo volta ao normal também no blog.


À GUISA DE DESPEDIDA
Reflexões sobre a observação da imprensa

Por Luiz Antonio Magalhães em 19/1/2010

Muita gente deve achar que é fácil ser um observador da imprensa, ganhar a vida lendo jornal, assistindo televisão, navegando na internet e apontando os erros – que não são poucos – dos colegas. Só que não é bem assim que as coisas funcionam.

O trabalho é de fato muito interessante, mas difícil. Um bom observador não se atém aos errinhos que aparecem nas páginas dos jornais, revistas e sites jornalísticos ou às gafes dos apresentadores de telejornais. Ao contrário, a compreensão do processo de elaboração de um jornal, revista, site noticioso, programa de rádio ou televisão é essencial para perceber a diferença entre o erro técnico – jornalistas erram muito, sobretudo porque estão submetidos à pressão do fechamento – e algo muito mais grave: o erro conceitual, aquele que simplesmente destrói toda a cobertura jornalística.

Sim, porque há erros e erros. Alguns viram verdadeiras lendas, se transformam em causos que fazem rir os leitores e principalmente os próprios profissionais de imprensa. Já ficou célebre, por exemplo, nota publicada em um grande jornal no dia 7 de dezembro de 1994 e que esclarecia sobre a morte de Jesus Cristo: "Diferentemente do que foi publicado no texto `Artistas periféricos passam despercebidos´, à pág. 5-3 da edição de ontem da Ilustrada, Jesus não foi enforcado, mas crucificado, e a frase `No princípio era o Verbo´ está no Novo, não no Velho Testamento."

Como pode alguém errar algo tão básico? Pois jornalismo é assim. É provável que o autor do texto que mereceu a correção saiba perfeitamente que Jesus fora crucificado e tenha sido traído pela pressão do fechamento, escrevendo inadvertidamente algo que com um pouco mais de tempo, uma única releitura ou revisão, teria sido obviamente corrigido antes "da página descer", como se dizia no jargão da profissão no tempo em que as gráficas ficavam no mesmo prédio da redação, em geral no andar térreo.

Trabalhoso e complexo

Apontar erros insólitos é parte da observação da imprensa, merece o registro bem humorado, como faz com maestria o jornalista Carlos Brickmann neste Observatório, mas não é o foco central do trabalho – e nem o enorme Carlinhos se limita a esses registros, trazendo sempre uma reflexão inicial mais profunda sobre os temas da semana.

O foco central da boa observação da imprensa, portanto, não pode ser o erro circunstancial, cômico e muitas vezes até compreensível. O mais importante é entender o funcionamento do sistema midiático e apontar os seus movimentos mais importantes. Para tanto, é importante lembrar o conceito de imprensa do jornalista e filósofo italiano Antonio Gramsci: "Uma organização material voltada para manter, defender e desenvolver a `frente´ teórica ou ideológica do bloco hegemônico". Segundo Gramsci, "enquanto aparelhos político-ideológicos elaboram, divulgam e unificam de concepções de mundo, jornais e revistas cumprem a função de organizar e difundir determinados tipos de cultura" [Antonio Gramsci, apud Dênis de Moraes, "Imaginário social, hegemonia cultural e comunicação", in A batalha da mídia. Rio de Janeiro, Pão e Rosas, 2009].

Gramsci morreu em 1937, mas a reflexão que fez sobre a imprensa permanece atual e merece ser levada em consideração por quem se atreve na observação da mídia. O filósofo entende que a imprensa "atua como aparelho privado de hegemonia, na medida em que procura intervir no plano político-cultural para organizar e difundir informações e idéias que concorrem para a formação do consenso em torno de determinadas concepções de mundo" [Dênis de Moraes, "A comunicação na batalha das ideias", artigo para o site Gramsci e o Brasil]. Este conceito é de fato fundamental para a observação da mídia.

Traduzindo a teoria, do ponto de vista prático é preciso estar muito atento ao entorno, às variáveis políticas e ideológicas que cercam a imprensa. Para se fazer uma boa crítica, portanto, é necessário estar sempre muito antenado no cenário político – nacional e mundial. E também no mundo das ideias, acompanhar ao menos os principais debates acadêmicos em curso. Pode parecer complicado, mas na verdade é mais trabalhoso do que complexo: um observador dedicado deve acompanhar atentamente as páginas de política e economia dos grandes jornais, mas precisa também ser leitor assíduo dos suplementos de ideias; no Brasil, precisa saber das últimas de Brasília, mas também do que vai pela planície, e o talk of the town muitas vezes está mais nas novelas da Globo do que nos telejornais.

Eterna prontidão

Impossível observar a imprensa sem levar em conta, para citar um episódio emblemático, uma minissérie global como Anos Rebeldes, que colaborou, em 1992, para criar um ambiente propício ao primeiro e único impeachment de um presidente da República no Brasil. É bom lembrar que a série em questão foi exibida na mesma emissora que deu suporte à eleição do ex-presidente impedido, o hoje senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL). Neste caso particular, este Observatório da Imprensa nem existia – surgiu em abril de 1996, na internet –, mas é um episódio que mereceu, em muitos momentos, reflexão posterior em situações análogas.

Impossível também observar a imprensa sem levar em conta alguns debates mais gerais e tão presentes no nosso tempo, como o do meio ambiente – acompanhado de perto aqui no Observatório por Luciano Martins Costa – ou as questões de gênero, especialidade de Lígia Martins de Almeida. Evidentemente, é impossível observar tudo o tempo todo – por isso mesmo este Observatório da Imprensa conta com uma equipe e tem o formato de fórum aberto aos leitores, que muitas vezes apresentam contribuições brilhantes em temas que os observadores da equipe não conseguiram perceber ou não deram conta de comentar.

Mas o impossível se torna menos impossível quando se tem no comando alguém do porte de Alberto Dines. Pouca coisa escapa à observação do mestre, muitas vezes para desespero de seus comandados. É tamanha a capacidade de trabalho e de percepção dos problemas da imprensa que dá, sim, para dizer que as eventuais derrapadas deste OI são de responsabilidade exclusiva da equipe e devem ter ocorrido quase sempre nas férias do editor-responsável.

De toda maneira, engana-se quem acredita que observar a imprensa é tarefa simples. Requer, como se pode ler acima, um compromisso não apenas com a leitura dos jornais e revistas, acompanhamento diário dos sites, telejornais e noticiários radiofônicos. O observador de fato vive em permanente atenção, acompanha e tenta compreender os movimentos políticos e ideológicos em curso no país e no mundo. Noves fora o fato de que notícia não tem hora para acontecer.

***

A atividade, porém, é compensadora e vai dar saudade. A reflexão contida neste artigo ocorre em clima de despedida, porque após exatos nove anos e seis meses, este observador está deixando a casa para novos desafios profissionais. Neste período, foram muitos os textos, boa parte deles com foco na observação do noticiário político nacional, mas muito maior foi o trabalho na "cozinha" do OI. Cabe então um breve relato pessoal, na verdade um registro do respeito e entusiasmo pelo projeto do Observatório da Imprensa.

Em agosto de 2000, com apenas 30 anos, comecei a trabalhar neste OI, cuidando da seção "Entre Aspas", dedicada a registrar as matérias sobre mídia publicadas nos grandes jornais e sites especializados. Era o início de um aprendizado. Trabalhar ao lado do editor-chefe Luiz Egypto foi um privilégio e também um desafio, porque quase nada escapa ao olhar criterioso de Egypto. Nos primeiros anos, o time se completava com a carismática e querida Marinilda Carvalho, a melhor copydesk, para usar outra expressão antiga,com quem já trabalhei – não há texto que a Mari não seja capaz de melhorar, na forma e no conteúdo.

Ao longo deste tempo todo, além Do "Entre Aspas" e do trabalho editando os artigos dos colaboradores e leitores, foram muitas as polêmicas, os artigos críticos em relação ao comportamento de praticamente todos os veículos de imprensa. Há obviamente um ônus em ser um observador, porque ninguém gosta de ser criticado.

Em quase dez anos de atividade, cabe aqui a lembrança de um único processo judicial motivado por um artigo escrito por mim, movido pelo jornalista Cláudio Humberto Rosa e Silva, em 2004. A causa, que já transitou em julgado, foi perdida. O artigo nem tinha foco em CH, mas, em uma citação lateral, faltou experiência e um adjetivo mal colocado abriu brecha para a reclamação do jornalista. Vivendo e aprendendo...

A eventual incompreensão de colegas com o trabalho de observação da mídia, aliás, é natural, quase intrínseca, até porque jornalistas têm egos "argentinos" – um bom negócio é comprá-los pelo que valem e vender pelo que acham que valem, como diz uma piada antiga e politicamente incorreta.

Tudo somado, o que fica é, além do aprendizado e a percepção mais acurada do próprio exercício da profissão (sempre trabalhei em outros veículos de imprensa paralelamente ao Observatório), uma forte convicção de que o projeto é fundamental para a construção de um país mais democrático. Pode parecer descabido, mas é verdadeiro, porque se a imprensa é um dos pilares da democracia, ela também deve ser acompanhada de perto, cobrada e, principalmente, criticada.

Se todos os poderes precisam de fiscalização, o tal "quarto poder" não pode simplesmente pairar acima de todas as instituições. Estão aí casos clássicos, como o da Escola Base, que não me deixam mentir. Já escrevi neste Observatório que no episódio da escola, o Prêmio Esso de Jornalismo naquele ano de 1994 cabia ao jornal Diário Popular, que não publicou uma linha sobre o caso, apesar da pressão do departamento comercial, porque seus editores duvidaram da história.

Sim, o grande fiscal da imprensa é quem paga pela informação que recebe, ou deixa de pagar se fica insatisfeito, mas este fiscal precisa de subsídios para formar a sua opinião sobre a mídia. E este é justamente o papel dos observatórios: ajudar o público a entender melhor o que está lendo, ouvindo ou assistindo na televisão. Salutar, portanto, a iniciativa. E quanto mais observatórios, melhor.

Por fim, cabe um agradecimento especial a toda a equipe do OI pela convivência sempre fraterna. Egypto, Luciano, Letícia Nunes, José Carlos Marão, Jô Amado, Larriza Thurler, Maria Luiza Werle, Andrea Baulé, Leila Sarmento, Spacca, todos os profissionais com quem tive o prazer e privilégio de trabalhar.

***

Quando avisei a Alberto Dines que escreveria este texto, fiz questão de dizer que não sairia algo piegas: a ideia era escrever uma reflexão sobre este período integrando equipe do OI e que agora se encerra. Impossível, porém, não registrar a emoção de deixar de trabalhar ao lado de alguém que tanto se admira. Dines é mais do que um ícone no jornalismo brasileiro. É a um só tempo um mestre e um colega, capaz de ensinar muito, mas também de refletir junto sobre questões que apenas finge não dominar. No final, o efeito é o mesmo: aprendizado constante e a sensação de que é sempre preciso e possível ir além, fazer mais e melhor. Isto é Alberto Dines, a quem agradeço pela confiança, sempre, e sobretudo pela convivência, que certamente não se encerra com o fim deste ciclo.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A queda de Kassab e a chance de Ciro

A notícia abaixo é péssimo sinal para a candidatura presidencial do governador José Serra (PSDB). O prefeito Kassab é do DEM, mas sua imagem está bastante associada a de Serra. É claro que as chuvas estão colaborando para o desgaste, mas a verdade é que Kassab não conseguiu, no segundo mandato, nada parecido com o primeiro, quando o programa Cidade Limpa encantou os paulistanos. De lá para cá, nada de realmente novo foi feito e há mesmo um certo ar de abandono na cidade - calçadas e canteiros sujos, mal cuidados, enfim, uma administração que parece ter acabado na vitória nas urnas no ano de 2008. Um personagem como Ciro Gomes pode, sim, ter espaço para crescer na terra que elegeu a paraibana Luiza Erundina após os anos de Jânio Quadros. É o pêndulo da política oscilando, ora para lá, ora para cá...

Avaliação da Prefeitura de SP cai de 46% para 28%

Pesquisa do Ibope revela que 26% consideram a administração ruim ou péssima; nota para a cidade é 4,8

De Gabriel Vituri e Renato Machado, da Agência Estado:

A aprovação da gestão de Kassab (DEM) foi fortemente abalada no último ano, segundo dados da pesquisa Ibope, encomendada pelo movimento Nossa São Paulo. A pesquisa foi realizada em dezembro de 2009 e os resultados foram divulgados na manhã desta terça-feira, 19.

Em relação à pesquisa anterior, de novembro de 2008, passou de 12% para 26% a quantidade de pessoas que avalia a administração municipal como ruim ou péssima. Dentre os que a consideram ótima ou boa, o percentual caiu de 46% para 28%.

Os números coincidem com a queda nos índices de outros indicadores de bem-estar na cidade. Por exemplo, aumentou de 6% para 28% a quantidade de pessoas que afirma temer alagamentos.

Também apresentaram altas o receio em relação ao trânsito (16% para 18%), atropelamentos (7% para 13%), assaltos ou roubos (57% para 65%) e torcidas de futebol (6% para 11%).

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Tucanos unidos jamais serão vencidos

Do blog de Lauro Jardim, colunista da revista Veja:

Eleições 2010
Sacrifícios tucanos
De Aécio Neves dias atrás a um interlocutor próximo a respeito de ser vice na chapa de José Serra:
- Por que eu me sacrificaria por uma pessoa que tenho certeza nunca se sacrificaria por mim?


É, faz todo sentido.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Leitão condena política econômica tucana

Muito interessante o artigo abaixo, da colunista Míriam Leitão, publicado em O Globo nesta sexta-feira. Míriam nem de longe pode ser considerada uma "petista", mas bateu até bem forte nas idéias de Sérgio Guerra, presidente nacional do PSDB. Pelo que se pode ler abaixo, ela prefere que as coisas continuem como estão. Resta saber se isto não seria mais natural de ocorrer se Dilma Rousseff suceder o presidente Lula... No fundo, algo está errado: ou bem o PSDB explica direito o que vai mudar e de que maneira vai mudar na condução da política econômica, em caso de vitória em outubro, ou deveria desistir de lançar uma candidatura própria.

O mesmo raciocínio vale para o discurso do próprio presidenciável tucano José Serra, que pode ser lido na matéria do Estadão de hoje, também reproduzida ao final desta nota, dando conta de que o candidato à presidência "não é o líder da oposição". Serra não quer bater no popular presidente Lula e prefere uma campanha sem embates com o governo.

O problema todo é que não se tem notícia de alguém ter vencido uma eleição presidencial nenhum tipo de disputa, sem em pelo menos alguns momentos chutar a canela do adversário. Até o tal "Lulinha paz e amor" de 2002, se bem analisado, apresentou em diversos episódios um grau de agressividade contra os adversários e o governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso que o credenciou, ao lado do esforço de comunicação propositivo, com a Carta aos Brasileiros, a vencer aquela eleição. Ademais, Lula já tinha no imaginário popular, graças aos anos todos em que esteve fora do poder, a aura de oposicionista, de personagem da mudança, de algo diferente na política brasileira. Enfim, ganhar uma eleição sem dar um único peteleco no adversário, ainda que ele tenha 99% de popularidade, é tarefa bem complicada, para dizer o mínimo. E fazer isto sem também explicitar os planos para o futuro, então, é algo quase impossível.

A seguir, os textos de Míriam Leitão e a matéria do Estadão, com link para leitura completa.


O câmbio do PSDB
O senador Sérgio Guerra, presidente do PSDB, disse que o partido não pretende, se for eleito, mudar metas de inflação, nem câmbio flutuante, nem autonomia do Banco Central. Isso parece a você o oposto do que ele disse à "Veja"? Também achei. Ele garante que os fundamentos da política econômica serão os mesmos, mas os pesos serão diferentes. Entendeu? Nem eu.
O que o senador me disse, quando liguei para entender melhor o que ele enunciara na entrevista da revista, foi o seguinte:
— As metas de inflação serão mantidas porque têm tido um bom resultado. O câmbio permanecerá sendo flutuante. O grande instrumento de mudança será o controle dos gastos públicos. Vamos cortar gastos de custeio e aumentar os investimentos, mudando o papel do Estado.
Na revista "Veja", quando o repórter Diego Escosteguy perguntou se haveria mudança na política econômica caso eles fossem eleitos, o mesmo senador respondeu: "Sem dúvida nenhuma. Iremos mexer nas taxas de juros, no câmbio e nas metas de inflação. Essas variáveis continuarão a reger nossa economia, mas terão pesos diferentes."
Exceto o fato de que elas terão pesos diferentes, a resposta que ele me deu tem um peso bem diferente da que deu à "Veja".
Explicação de Sérgio Guerra quando cobrei a contradição:
— Dei uma entrevista muito maior do que essa, como é normal na revista. Isso é parte do que eu disse, mas não tudo. Não disse que se vai mexer nas metas de inflação.
Quis saber então como é que eles vão "mexer com câmbio e com os juros". Qual será a nova política cambial e monetária que vai substituir a atual?
— Vamos atuar fortemente nos gastos públicos, vamos reorganizar o Estado, rever prioridades. Os juros são bastante altos. O mercado continuará tendo um papel, mas vamos trabalhar para que os juros caiam.
Perguntei se esse mexer com os juros significaria intervir nas decisões hoje tomadas de forma autônoma pelo Banco Central:
— Não vamos intervir, o Banco Central terá independência.
Então quer dizer que vocês vão propor a independência do Banco Central?
— Não. Isso não foi discutido dentro do partido.
Então ficará tudo como é atualmente, com o BC tendo autonomia?
— Sim, o BC continuará tendo autonomia, mas trabalharemos para que os juros caiam porque eles são altíssimos no Brasil.
Argumentei que os juros são altos, mas caíram muito nos últimos anos, por decisões do próprio BC.
Os juros vão cair, segundo Sérgio Guerra, por força desse ajuste fiscal.
— Vamos fazer um forte ajuste fiscal — disse.
De fato, essa é a forma pela qual se abre espaço para a queda dos juros, mas nada é feito de uma para a outra, e na revista ele tinha dito: "Se ganharmos, agiremos rápida e objetivamente."
Na conversa comigo, ele falou de refazer o planejamento do governo, mudar a forma de gastar. Nada que tenha resultado assim tão imediato.
O senador me disse, mais de uma vez, que não será abandonada a flutuação do câmbio. Mas falou em mudar o câmbio.
— O câmbio será mais apreciado. É claro que não dá mais para conviver com estas taxas de câmbio. Os níveis são evidentemente prejudiciais às exportações brasileiras — disse.
O interesse em tudo o que ele disse é óbvio: ele é o presidente do maior partido de oposição e que está na frente nas pesquisas de intenção de votos.
Sem intervir no câmbio, a única forma de apreciar a taxa é derrubar os juros. E a única forma de derrubar os juros é cortando os gastos públicos, reduzindo demanda agregada para neutralizar possíveis pressões inflacionárias que coloquem as metas de inflação em risco.
Foi esse o edifício montado pelo próprio PSDB depois da desvalorização cambial de 1999. Na política de metas de inflação, o BC tem que ter autonomia para elevar os juros caso a inflação saia da trajetória estabelecida.
O problema é que isso sempre causa atritos com a área política. Em qualquer governo. O dólar baixo é curioso porque traz efeitos diferentes. Por um lado, reduz a inflação e aumenta a capacidade de compra dos salários. Desses efeitos, todos os governantes gostam, mas nunca atribuem ao câmbio. Por outro, reduz a competitividade das exportações e incentiva importações. Isso, todos condenam. E nesse caso também há uma complicação a mais: muitas vezes quem exporta também importa e isso acaba neutralizando um pouco suas perdas. A confusão é que nenhum governo consegue apreciar o câmbio quando quer, a menos que mude a política de flutuação cambial, o que tem, como aprendemos, vários perigos.
A política econômica em seus fundamentos principais foi uma montagem do governo do PSDB. Ela foi mantida pelo governo do PT. Durante a campanha, como todos sabem, o então candidato Lula teve que divulgar uma "Carta aos Brasileiros", mudando as bases das políticas que eles vinham defendendo por anos. Se continuar falando em mudanças na política econômica sem explicar direito, o PSDB vai acabar tendo que fazer também a sua "Carta aos Brasileiros".


Candidato não é chefe da oposição, diz Serra

Christiane Samarco, O Estado de S. Paulo
O governador José Serra só oficializará a candidatura presidencial em março, mas já adianta que o foco da campanha do PSDB não será o atual governo. Demonstrando, pela primeira vez, menos preocupação com a condição de candidato natural à sucessão de Lula, ele conversou com o Estado na noite de quarta-feira, depois de participar, no Itamaraty, de evento em que foram anunciados investimentos federais nos Estados que sediarão jogos da Copa de 2014.
"Candidato a presidente não é chefe da oposição", afirmou, delegando ao PSDB a tarefa de criticar o governo Lula e se guardando para o que considera o confronto real, com a candidata Dilma Rousseff, mais adiante. A síntese é a de que o exercício da oposição é tarefa partidária. A sua é a de governar o Estado.
A mensagem alcança o Planalto porque o governador avalia que o presidente Lula antecipou o calendário eleitoral também para atraí-lo antes do tempo. Se caísse na cilada palaciana, facilitaria a estratégia de Lula de estabelecer uma campanha polarizada entre seu governo e o anterior, do PSDB.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Nivaldão deu piti: vai votar nulo

Primeiro post humorístico do ano, retirado do blog direitoso Mídia Sem Máscara. Nivaldo Cordeiro até outro dia achava que Serra era a solução para exterminar o "lulo-petismo" do país. Mudou de ideia por causa do prefeito Kassab. Vale a pena ler até o final, é para rir com gosto. Eles que são brancos que se entendam.


A inspeção ambiental veicular
Nivaldo Cordeiro

Meu caro leitor, eu estou cansado de tudo isso, de ser roubado na cara dura pelo governo. Por isso não vou votar no candidato do Kassab, José Serra, que em nada se diferencia da ex-guerrilheira Dilma.

Recebi pelos Correios a notificação da prefeitura de São Paulo para fazer a "inspeção ambiental veicular" do exercício de 2009. Eu havia me esquecido desse troço e pensei que não iria vingar, tal o grau de absurdo que essa invenção representa. Enganei-me. Sempre me engano com o tamanho da desfaçatez da nossa classe política e seus assessores da burocracia estatal. Perderam a noção de limite.
Descobri pela notificação que uma lei municipal instituiu multa de R$ 550,00 por mês para quem não fizer a tal "inspeção veicular ambiental". Isso mesmo! Mas para fazer a tal inspeção está sendo cobrada a módica taxa de R$ 56,44, com centavos e tudo e não me pergunte qual a fórmula matemática utilizada para determinar esse roubo descarado com tamanha precisão. Ao menos deveriam arredondar a cifra, como fizeram com a multa cavalar para aqueles que não puderem fazer a tal "inspeção veicular ambiental".

A prefeitura ainda teve a cara de pau de escrever, em caixa alta, o seguinte: "Faça a sua parte contribuindo para a melhora da qualidade do ar em São Paulo, e lembre-se que veículo bem regulado emite menos poluente e é mais econômico para o proprietário". Quer dizer: estão me roubando para meu próprio benefício, não é mesmo? Além de faltarem com respeito e abandonarem a vergonha ainda querem me insultar a inteligência. Um desaforo.

Esse prefeito Gilberto Kassab é um ladrão com vocação para ditador. Vimos isso por ocasião da revisão da Planta Genérica dos Valores, elevando dramaticamente o IPTU de São Paulo. Eu soube que a burocracia da prefeitura foi orientada por ele a atrasar a entrega dos avisos de pagamento do imposto, especialmente dos bairros castigados pelas enchentes, porque a crise vai ser geral quando as pessoas descobrirem o quanto terão que pagar. Os aumentos anunciados estão abaixo do que de fato foi praticado. Mas o prefeito ladrão acha que pode minimizar o roubo delongado a entrega do aviso de pagamento. Ele que espere, as eleições estão bem próximas e sua ladroagem não será esquecida.

Mas voltemos à "inspeção veicular ambiental", que é meu foco aqui. Na prática, instituíram mais uma taxa de licenciamento adicional, a meu ver inconstitucional. Para tanto, estão obrigando todos os proprietários de veículos a comparecer em algum sítio para o carro ser contemplado por algum burocrata e receber o carimbo. Quanto custa a cobrança da taxa da "inspeção veicular ambiental"? O custo real é o que se paga pelo roubo direto, mais o tempo de deslocamento, custos respectivos, paciência, tudo. Um absurdo para legitimar a cobrança exorbitante. Melhor se cobrassem sem encher o saco (peço licença para ir na linguagem popular, caro leitor, pois estou indignado) de ter que ir lá, pois bem sabemos que o prefeito ladrão, assim como a burocracia do trânsito, não estão preocupados com o meio ambiente, mas exclusivamente com o dinheiro a arrecadar.

Meu caro leitor, eu estou cansado de tudo isso, de ser roubado na cara dura pelo governo. Por isso não vou votar no candidato do Kassab, José Serra, que em nada se diferencia da ex-guerrilheira Dilma. Todos eles em conluio para infernizar a nossa vida, tomar o nosso dinheiro, o nosso tempo e a nossa paciência. Faça como eu, tome uma atitude e vote nulo. Mande essa corja de ladrões para o devido lugar, o colo da mãe que os pariu.

Ainda sobre Direitos Humanos: Gaspari
critica a postura de Fernando Henrique

Vale a pena ler o artigo abaixo, originalmente publicado na FSP e O Globo. Segue na íntegra para os leitores do blog:

Perigo à vista: vivandeiras do tucanato
Elio Gaspari

A EXPRESSÃO "VIVANDEIRA" veio do marechal Humberto Castello Branco, há 45 anos, no alvorecer da anarquia militar que baixou sobre o Brasil a treva de 21 anos de ditadura. Referindo-se aos políticos civis que iam aos quartéis para buscar conchavos com a oficialidade, ele disse:
"Eu os identifico a todos. São muitos deles os mesmos que, desde 1930, como vivandeiras alvoroçadas, vêm aos bivaques bolir com os granadeiros e provocar extravagâncias ao Poder Militar".
Desde o início da controvérsia provocada pelo Programa Nacional de Direitos Humanos, sentia-se o perfume da sedução tucana pelo flerte com a figura abstrata dos militares aborrecidos com a ideia de esclarecer a responsabilidade por crimes praticados durante a ditadura. Uma palavrinha aqui, outra ali, coisa cautelosa para uma corrente política que pretende levar à Presidência da República o governador José Serra, que pagou com 15 anos de exílio o crime de ter presidido a UNE. Serra e os grão-tucanos conhecem um documento de 1973, preparado pela meganha enquanto ele estava preso ou asilado no Chile. A peça vale por uma anotação manuscrita: "Esta é a súmula do que existe sobre o fulano. Como vês, trata-se de "boa gente" que bem merece ser "tratado" pelos chilenos". A rubrica do autor parece ter três letras. (Ao menos cinco brasileiros foram "tratados" pelos chilenos nas semanas seguintes ao golpe do general Pinochet.) Será que Serra não tem curiosidade de saber quem queria "tratá-lo"?
A vivandagem tucana explicitou-se numa entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao repórter Gary Duffy. No seu melhor estilo, disse a coisa e seu contrário. Referindo-se aos itens do programa de direitos humanos que cuidam do estabelecimento de uma comissão da verdade, o ex-presidente afirmou o seguinte:
"Este não é um assunto político no Brasil, mas uma questão de direitos humanos, o que para mim é importante, mas o perigo é transformar isso em um assunto político".
Assunto político, o desaparecimento de pessoas jamais deixará de ser. Não há como dizer que seja um tema climático. O ex-presidente foi adiante e viu na iniciativa de investigar os crimes do Estado um fator de "intranquilidade entre as Forças Armadas".
Pode vir a ser um fator de indisciplina. "Intranquilidade entre as Forças Armadas", só se fosse uma ameaça às fronteiras nacionais ou às reservas de petróleo do mar territorial. Fernando Henrique Cardoso já sentiu o gosto amargo da vivandagem quando ampliou a Lei da Anistia e reconheceu a prática, pelo Estado, dos crimes da ditadura. Nesse sentido, na busca da verdade e da compensação das vítimas (reais) da ditadura, deve-se mais a ele e a tucanos como José Gregori do que a Lula e a organizadores de eventos como Tarso Genro e Paulo Vannuchi.
Não se reconhece em Fernando Henrique Cardoso do ano eleitoral de 2010 o presidente de 1995 a 2002. Muito menos o militante das causas democráticas, visto pela tigrada como um "marxista violentíssimo". Felizmente, pode-se garantir que FHC não sentou praça na tropa da ditadura. Infelizmente, podendo mostrar pelo exemplo que há uma diferença entre os tucanos e as vivandeiras, escolheu o cálice do oportunismo.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Lembo: lucidez e clareza sobre o PNDH

Cláudio Lembo é, disparado, o conservador preferido deste blog. Claro, elegante, inteligente e sobretudo honesto. Obviamente, o pensamento dele não é o mesmo do autor destas Entrelinhas, mas no caso da análise abaixo, originalmente publicada no sempre excelente Terra Magazine, o que Lembo escreveu este blogueiro subscreve integralmente. E recomenda leitura atenta: até agora, não saiu na imprensa nada melhor sobre este assunto do que o que vai abaixo.


Vá à fonte
Cláudio Lembo

Uma grande celeuma. Por pouco. O Governo Federal editou nos últimos dias de dezembro – mais precisamente no dia vinte e um daquele mês – extenso e estranho documento.

Estranho por indicar, com grandiloqüência, processo que se desenvolve continuamente, graças à instauração da democracia nos anos oitenta. A sua evolução é normal, apesar de núcleos reacionários contrários.

Este documento legal denomina-se PNDH-3. É o terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos. Arrola temas comuns nos debates acadêmicos e presentes nos meios de comunicação.

Aqui e ali, utiliza linguagem marcada por uma deformação ideológica oriunda dos anos 60. Isto, porém, não incomoda. Indica, apenas, que seus autores, um dia, procuraram ser agentes da utopia.

Ora, quem lê, sem preconceitos, o documento presidencial constatará que ele enfoca temas que, necessariamente, deverão ser abordados pela sociedade e, depois, analisados pelo Congresso Nacional.

Em uma sociedade com conflitos sociais latentes, onde poucos dominam, pelas mais diversas formas, a grande maioria, preservando-a em situação alarmante, apontar temas para o debate é essencial.

Claro que alguns tópicos arrolados, no documento, à primeira vista, se assemelham descabidos. O uso de símbolos religiosos em recintos públicos da União, por exemplo.

A tradição cultural brasileira sempre aceitou – sem contestação, ainda porque a imensa maioria da sociedade pertencia a uma única religião – a afixação de símbolos religiosos em locais oficiais de trabalho.

Hoje, a formação da sociedade alterou-se. São inúmeras as confissões religiosas e as novas crenças que se acresceram ao cenário social do País. Antes que conflitos surjam, é bom que um Estado laico trate do tema.

Outros assuntos versados também parecem extravagantes. A verdade, no entanto, que eles permeiam a sociedade, apesar de alguns poucos quererem vê-los como descabidos.

Examinem-se alguns poucos. A situação das prostitutas no contexto social. Marginalizadas. Usadas como objetos. Repudiadas como seres fora da normalidade. Posição anti-social inaceitável.

A questão da homo-afetividade, já tratada por muitos países, inclusive pelos seus parlamentos – como aconteceu na última semana na Assembléia da República portuguesa – e na penumbra por aqui.

Há temas que causam aflição e desconforto permanente. Nem por isto não devem ser trazidos à tona e debatidos, a partir das inúmeras posições religiosas e visões, morais.

A eutanásia não pode ser esquecida. Até onde vai a vontade de familiares e médicos em manter a vida vegetativa? É moral manter a vida de quem se encontra condenado pela plena falência biológica?

O aborto criminalizado pela nossa lei penal e, assim, levando, particularmente, à mulher todo o ônus da condição humana, deve ser cinicamente omitido entre os problemas da sociedade?

Claro que estes assuntos, no campo moral, sempre causam repulsas. Nem por isto, porém, devem deixar de ser examinados e debatidos pela sociedade. Permanecer estagnados é que se mostra grave.

No campo político, o documento legal mostra-se limitado. Quer analisar o Estado Novo e os acontecimentos de 1964. Bom e oportuno. Mas violência ocorre no Brasil desde 1500. A colonização foi um ato de força.

São tantas e tão diversas as questões inseridas no Terceiro Programa Nacional dos Direitos Humanos que se torna difícil uma análise mais abrangente de seu conteúdo.

Contudo, oportuno notar que sua formatação não contém nenhuma força coercitiva. Trata-se apenas de um roteiro para futuros exercícios de cidadania.

Os professores, acostumados a ler os trabalhos contemporâneos de seus alunos, constatarão que o documento parece produto de uma tarefa própria de um exercício de informática.

Origina-se de uma longa atividade de coleta de dados, sem que isto aponte para qualquer vício cometido pelos seus autores. Na verdade eles foram a trabalhos concretizados pela União Européia, ultimamente.

Antes, contudo, nos anos sessenta, os temas consolidados mereceram grande explicitação nas universidades norte-americanas e, por aqui, em vários organismos privados de pesquisa e extensão.

O melhor, no caso do decreto n. 7.037, de 21 de dezembro de 2009, é o acesso ao texto integral pelo cidadão responsável. Faça este a sua própria análise do documento.

Ganham os direitos humanos, afastam-se as interpretações facciosas. Não ouça terceiros. Vá à fonte. É melhor e mais seguro.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Sorte de uns, azar de outros...

Lula é um sujeito de sorte. Muita sorte. Se elegeu por seus méritos em 2002, mas contou com a sorte. A ameaça de apagão generalizado no país debilitou Fernando Henrique Cardoso e o PSDB e foi um dos motivos da queda de popularidade do ex-presidente. Nos últimos anos, o fantasma do apagão sempre rondou o Brasil. Se a economia crescesse demais, não haveria energia que desse conta, caso os reservatórios se mantivessem em níveis baixos. Alguns economistas chegaram a dizer, nos últimos anos, que havia uma condicionante para a taxa de crescimento: o setor energético, que poderia não acompanhar a velocidade do desenvolvimento nacional. Bem, no último ano de seu mandato, com a perspectiva de um crescimento robusto e logo após um episódio de apagão - bem diferente dos de seu antecessor, diga-se logo -, eis que chove como nunca antes neste país. O problema agora, conforme se pode ler na matéria abaixo, da Folha Online, não é reservatório esvaziado, mas risco de transbordamento. Ocorre que energia não vai faltar, nem que o Brasil cresça 6% neste ano. Mas os alagamentos em São Paulo serão debitados na conta de José Serra, o tucano que governa o estado e pretende suceder o atual presidente. Lula, definitivamente, é um homem de sorte. Ou não é?

No limite, sistema Cantareira pode causar inundações, alerta Sabesp

O sistema Cantareira de produção de água, o principal da região metropolitana de São Paulo, opera neste domingo com 97,7% da sua capacidade total de armazenamento. O registro é da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo).

Se continuar chovendo nos próximos dias, o reservatório deixará de segurar a água, que não será mais represada, aumentando o nível dos rios e provocando enchentes nas comunidades ribeirinhas.

Segundo a empresa, as represas de Atibainha e Cachoeira, que integram o sistema, estão acima dos níveis de segurança. No último registro da Sabesp, divulgado na quinta-feira (7), o descarregamento das águas do Atibainha era de 9 metros cúbicos, enquanto a represa recebia 24,26 metros cúbicos por segundo. A Cachoeira descarregava 5,07 metros cúbicos enquanto recebia 24,52 metros cúbicos por segundo.

A Sabesp informou que está fazendo descargas das águas das duas represas para colaborar com a contenção das águas no rio Atibaia. Segundo nota da empresa, "há restrições provocadas pela ocupação de áreas inundáveis, que prejudicam o descarregamento de vazões de grande magnitude". As represas têm de ser abertas para manter a segurança e evitar um colapso.

De acordo com o registro da empresa neste domingo, o índice de chuva acumulado em janeiro é de 149,4 milímetros (cada milímetro equivale a um litro de água por metro quadrado). A média história do mês é de 255,9 milímetros.

Na sexta-feira (8), representantes da Sabesp e da Defesa Civil e o governador José Serra (PSDB), acompanhado de uma equipe, estiveram em Bragança Paulista (85 km de São Paulo) em uma reunião com prefeitos das cidades da região. Eles discutiram medidas preventivas para evitar problemas nas áreas ocupadas.

"As áreas potencialmente inundáveis já devem ser objeto de atenção, de remoção de pessoas quando forem áreas de muito risco, ou de alerta quando forem áreas de médio risco", disse o governador por meio de nota.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Minas é a chave de 2010?

Não é fácil fazer previsão eleitoral, há muito chute nesta área. Surpresas acontecem, o imponderável deve ser sempre levado em consideração. Com esta premissa básica, é possível, no entanto, olhar o cenário e tentar raciocinar com a realidade dos números e da conjuntura política. A eleição deste ano está se configurando, neste momento, como um jogo ainda bem aberto. Sim, José Serra (PSDB) desponta como favorito, seguido por Dilma Rousseff (PT), uma incógnita eleitoral que conta com um padrinho de respeito, o presidente Lula. Ciro Gomes (PSB) e Marina Silva (PV) correm por fora, mas é claro que podem surpreender.

Até aqui, o leitor do blog pode estranhar: qualquer analista político de botequim diria o mesmo. É verdade, mas o conceito do jogo em aberto - e não de favoritismo de Serra ou Dilma ("quando a campanha de fato começar") – é importante e precisa ser ressaltado.

Posto isto, vamos ao que de fato interessa. Pelo andar da carruagem, Minas Gerais será o estado decisivo na eleição de 2010. Não é difícil entender a razão. A probabilidade de Serra vencer até com certa folga em São Paulo é grande. No Norte e Nordeste, o apoio de Lula deve alavancar Dilma. No Rio de Janeiro, a ministra também deve ter boa votação, provavelmente bem superior a de Serra, especialmente se o PT não fizer a bobagem de levar à frente a candidatura de Lindoberg Farias, o muso do impeachment de Collor, rapaz hoje um tanto envelhecido, com grandes ambições e pequena percepção do cenário nacional. Apesar de Yeda Crusius, o Rio Grande do Sul vota sempre dividido, mas é possível que o fardo da campanha ao lado da governadora prejudique Serra.

São Paulo é o maior colégio eleitoral do país e uma margem grande de votos para o atual governador é um belíssimo capital político para Serra. A diferença de votos em São Paulo precisa ser revertida com uma vantagem muito expressiva em todo o nordeste, norte e sul. A tarefa não é fácil, mas é possível. Desconsiderando Minas Gerais e tendo este cenário em vista, é possível que os dois - Serra e Dilma - cheguem em condições mais ou menos parelhas na reta final da eleição de outubro. Pois então será em Minas que o jogo será jogado. Podem fazer as apostas.

Se Aécio Neves fosse vice de Serra, a tendência seria de apoio expressivo dos mineiros à chapa tucana. Só que Aécio não será vice de Serra, mas candidato ao Senado. É aí que o jogo fica complicado. O PT mineiro está em guerra - há uma ala que defende a candidatura própria, outra que trabalha pelo apoio do partido ao ministro Hélio Costa (PMDB). Caso o PT lance candidatura própria e supondo que Hélio saia candidato de qualquer maneira, a posição de Serra melhora bastante, ainda que o tucano-gelatina indicado por Aécio para a eleição estadual não empolgue. A razão é simples: Serra poderia compor com Hélio ou pelo menos contar com a neutralidade dele em relação à candidatura de Dilma Rousseff no plano nacional. Em um eventual segundo turno mineiro, a única chance de Serra se dar mal seria a de uma improvável disputa entre Hélio e Anastasia, porque se o PT for para segundo turno contra o tucano, o ministro teria sido alijado da disputa justamente pelo PT...

Um outro cenário bem diferente seria o de uma aliança entre PT e PMDB já para o primeiro turno, em torno de Hélio Costa. Neste caso, Serra fica em uma situação delicada em Minas, com um palanque complicado, de um candidato sem expressão, mas apoiado por Aécio, que também não é do tipo de fazer grandes esforços pelo presidenciável de seu próprio partido. É sempre bom lembrar que Geraldo Alckmin teve em 2006 menos votos no segundo turno em Minas do que os obtidos no primeiro escrutínio, algo que aconteceu poucas vezes na história. Em uma situação de equilíbrio entre as candidaturas presidenciais, conforme já apontado acima, pelo diferencial do tucano em São Paulo e da ministra no Norte e Nordeste, Minas Gerais tende a decidir a eleição. É só fazer as contas: quem levar a maioria em Minas tem mais chances de vencer no plano nacional.

Dilma é mineira, radicada no Rio Grande do Sul, é bem verdade, mas a naturalidade mineira pode ser de grande valia na hora da verdade das urnas - qualquer marqueteiro de terceira categoria exploraria este fato. Serra, por outro lado, pode amarrar um apoio mais consistente de Aécio, o que seria também um excelente trampolim no estado. Ou ainda nomear um vice mineiro para compor a chapa - Itamar Franco vem sendo bastante lembrado.

Portanto, Minas Gerais curiosamente poderá voltar a ser central na política brasileira sem ter um candidato do estado à presidência da República. Acompanhar de perto o cenário da eleição estadual mineira desta vez será central para quem quiser entender por onde vai a disputa nacional...

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Serra e mais um vexame oculto na mídia

O que se viu no litoral norte de São Paulo nesta virada de ano foi algo realmente inacreditável. Este blogueiro esteve lá e pode reportar com fidelidade - deu até uma certa sorte, pois deixou Ubatuba às 13h de sábado e chegou a São Paulo às 19h. Do mesmo dia, ao menos. Apenas no trecho entre Ubatuba e Caraguatatuba, o autor destas Entrelinhas levou 2h30 porque viaja para o litoral desde os 18 anos e conhece atalhos que outros incautos nem sonham existir. Em geral, este mesmo trajeto é feito em 40 minutos, com algum trânsito local. Ou trinta minutos, em fins de semana sem feriados.

É claro que o caos no litoral paulista foi noticiado exaustivamente pela imprensa, está todo mundo sabendo das dificuldades dos motoristas, que no domingo levavam mais de 12 horas para subir a serra e retornar à paulicéia. Na segunda-feira, os problemas se repetiram. De novo, todo mundo viu.

Bem, então por que o "vexame oculto" do título? E o que o governador José Serra (PSDB) tem a ver com isto? Pois Serra tem tudo a ver e basta o leitor lembrar do tratamento dispensado ao tal "caos aéreo" de 2009 para entender como os jornalões e portais estão protegendo o governador. Sim, porque o caos nas rodovias paulistas que ligam o litoral norte à capital é uma prova viva da completa incompetência do governo tucano. Era tudo tão previsível que causa espanto ninguém ter pensado em uma operação especial para a volta dos turistas. Este blogueiro já viu trânsito muito ruim mundo afora, mas nunca viu a ausência do poder público de tal monta como no litoral norte de São Paulo. Quando muito, um ou outro carro da polícia rodoviária tentava, sem sucesso, evitar que os automóveis circulassem pelo acostamento.

Tudo errado. Um mínimo de inteligência no Palácio dos Bandeirantes teria feito com que os ociosos policiais de trânsito da capital deserta decessem a serra para auxiliar em uma operação de guerra para dar fluidez, direcionar os motoristas, inverter pistas ou até mesmo criar itinerários obrigatórios que permitissem um retorno em menor tempo à capital. Em várias cidades italianas, como Roma e Napóles, as brigadas de trânsito fazem isto com frequência, desafogando em poucas horas verdadeiros nós górdios no trânsito. Nada disto aconteceu no litoral, para não falar das péssimas condições das rodovias que Serra abandonou ao Deus dará, aguardando um projeto de privatização que o próprio mercado rejeitou.

Na imprensa, porém, Serra não existe, ou melhor, só existe quando aparece todo faceiro "vistoriando" os escombros da cidade de São Luís do Paraintinga arrasada pela chuva. A culpa pelo desastre logístico no litoral norte é atribuída ou ao mau tempo - o que é uma piada de péssimo gosto - ou ao excesso de turistas.

É, mais um pouco os jornalões vão dizer que as filas de automóveis têm o dedo do presidente Lula, cujo governo permite este absurdo que foi, em dezembro, a venda de 50% a mais de carros em relação ao mesmo mês do ano anterior. Podem apostar, não demora muito.

Já Serra passa incólume, nada diz, nada faz, apenas consente, com o ar professoral que lhe é perculiar: foi mesmo grave, gravíssimo, resultado de uma conjunção de fatores inesperados e tudo mais. No fundo, é um discurso tão morto que dá até uma certa saudade daquela velha história do choque de gestão de Geraldo Alckmin. O antecessor de Serra pelo menos dava a impressão de que acreditava no que dizia...