domingo, 28 de fevereiro de 2010

Se correr o bicho pega, se ficar...

Complicou bastante a situação do governador José Serra (PSDB) com a divulgação da nova pesquisa Datafolha, neste sábado. Serra viu sua vantagem de 14 pontos ante a candidata governista Dilma Rousseff cair para apenas 4, quase um empate técnico. E este é apenas um dos problemas de Serra, como se verá a seguir.

Sim, porque a pesquisa também mostra que a popularidade do governo Lula continua ascendente, tendo batido mais um recorde ao chegar aos 72% de avaliação positiva - e o Datafolha não mede a popularida pessoal do presidente, que sempre se situou quase uma dezena de pontos percentuais acima da do governo. Dizer que pesquisa é fotografia do momento é apenas um clichê, os dados consolidados e as curvas mostram um filme em andamento também. E este filme é o que há de pior para Serra: a aprovação ao governo Lula está subindo consistentemente com a recuperação da economia depois do tombo do ano passado.

É fato que a crise não prejudicou em nada o presidente, que mesmo nos piores momentos do ano passado surfou nas ondas da sua altíssima aprovação popular. Também é fato que uma estabilidade nos patamares em que Lula se encontra já seria por si só uma enorme dificuldade para Serra ou qualquer outra candidatura oposicionista, mas a verdade é que se Lula ainda encontra espaço para crescer, aí então a coisa se torna dramática para a oposição.

Ora, mas quem está na frente é José Serra, poderiam perguntar os mais desconfiados. Sim, o tucano continua na frente, mas já em outro patamar - especialmente quando se considera a sua apertada vitória em cenário de segundo turno (45 a 41). Não é mais favorito e pode começar a campanha atrás de Dilma.

Serrá terá bastante dor de cabeça nesta semana com a pressão dos aliados para que mude a estratégia de permanecer governando São Paulo como se não fosse candidato a coisa alguma em 2010. Ele não quer assumir a candidatura agora porque ainda não tem garantias que julga necessária para encarar a disputa, como o apoio do colega Aécio Neves, que tem dito que prefere ficar em Minas a assumir a vice na chapa de Serra. A atual situação nas pesquisas pode levar Aécio a desistir da empreitada, uma vez que ele nada ganharia sendo vice de uma chapa com chances sérias de derrota.

As paredes dos Bandeirantes sabem que Serra tem um Plano B, o de disputar a reeleição e deixar a sucessão de Lula para Aécio ou quem se habilitar ao desafio no partido. A pesquisa de hoje pode ter ajudado na decisão de Serra? Talvez, mas este blog acha que ele vai esticar a corda até quando der, para obter mais elementos e sentir a temperatura da disputa.

Do lado de Dilma, tudo é festa neste momento. O plano de Lula para a candidata está funcionando e o patamar de quase 30% já foi atingido. Se nas próximas pesquisas ela ultrapassar Serra, terá criado um fato político fortíssimo. E não será surpresa se isto ocorrer ainda em março.

Wagner Iglecias foi bastante feliz na lembrança: o "E agora, José?" é a pergunta da vez. Bem verdade que a resposta depende muito do que virá das montanhas de Minas. A bola está com Aécio, mas ele não tem nenhuma pressa de soltar o jogo. Se recusar a vice, praticamente sepulta as chances de Serra, salvo, é claro, um terremoto do lado petista, o que também não é coisa para se desprezar, haja vista o histórico de aloprados fazendo besteira fora de hora. Mas aparentemente Dilma está firme e não tem muito a cara de fazer bobagens. A oposição vai precisar jogar muito bem para levar esta, pois o jogo será muito duro, mesmo sem a presença de Lula na urna eletrônica.

Iglecias: E agora, José?

Abaixo, análise do professor Wagner Iglecias sobre a pesquisa Datafolha que mostrou Dilma Rousseff a apenas 4 pontos de José Serra na corrida pela sucessão do presidente Lula. Em seguida, a análise deste blogueiro.

A frase que dá titulo a este artigo não é exatamente inédita, não é rima nem é solução, mas cai como uma luva sob o momento do candidato tucano José Serra, provável postulante da oposição à sucessão do presidente Lula. E cabe-lhe especialmente após a divulgação, neste sábado, da nova pesquisa Datafolha, que mostra Dilma Rousseff tirando-lhe preciosos pontos de intenção de votos e surgindo-lhe no seu encalço, ao passo que os demais candidatos permanecem estacionados bem mais atrás.

Caso estivessemos numa corrida de Fórmula 1 daria pra dizer que estamos numa daquelas provas em que alguém dispara na frente, lidera por várias voltas e, quando percebe, vê um concorrente crescendo em seu retrovisor até chegar a uma distância que, como dizem os especialistas, é meramente visual, na qual os milésimos de segundo já não fazem tanta diferença. É mais ou menos esta a situação do governador Serra hoje. Lançando-se candidato à presidência da República, joga a última grande cartada de sua carreira política e se vencer alcança um sonho que muitos lhe atribuem desde a juventude e reconduz o consórcio PSDB-DEM ao Palácio do Planalto, provavelmente (re)introduzindo uma série de prioridades que o Brasil teve na década de 1990 mas que foram deixadas em segundo plano na Era Lula. Mas se Serra for ultrapassado por Dilma e vê-la cruzar na frente a linha de chegada em outubro, praticamente encerra suas perspectivas políticas futuras e vê seu correligionário Geraldo Alckmin, que é PSDB mas é de uma outra turma, com grandes chances de voltar a governar o estado de São Paulo.

Aécio, por sua vez, parece ao grande público como que recolhido em copas, mas quem sabe pode ser o regra três para este momento dificil do tucanato. No entanto, se Serra desistir do vôo presidencial e a oposição lançar o governador mineiro talvez já seja muito tarde para a composição dos palanques estaduais. Tarde logo para Aécio, que muita gente diz ter mais condições que Serra para costurar alianças regionais e ampliar tanto à esquerda quanto à direita o arco de forças políticas que poderiam apoiar uma candidatura oposicionista.

Some-se ao complicado momento tucano a trajetória "ladeira abaixo" do DEM, tradicional parceiro do PSDB em tantas eleições e governos, assim como a liderança que os candidatos a governador que apóiam ou são apoiados pelo Planalto estão mantendo nas pesquisas de intenção de voto em estados importantes como Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Sul etc. e perceba-se como está sendo dificil este primeiro trimestre para Serra e para a oposição em geral. Além de tudo o calendário político e eleitoral corre, e urge que se tomem decisões, acertadas e rápidas. Diante de tantas dificuldades, de certeza mesmo apenas a relevância da velha pergunta: e agora, José?

Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Bandeirantes à vista?

Pode até ser despiste, mas crescem no entorno de José Serra as conversas de que o chefe poderá abrir mão da candidatura à presidência em prol de uma reeleição garantida em São Paulo. A pesquisa Datafolha que será divulgada neste domingo poderá ser um divisor de águas na campanha eleitoral. Se A diferença entre Serra e Dilma cair muito, o governador ficaria no Bandeirantes e concorreria à reeleição. Se o quadro não se alterar muito, Serra permanece na luta para suceder o presidente Lula. Faz sentido.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Tempos difíceis para a oposição

Notícia nos portais dão conta da preocupação do governador José Serra (PSDB) com a situação de seu aliado Gilberto Kassab (DEM), prefeito de São Paulo. Serra não estaria exatamente preocupado com a possibilidade de cassação de Kassab, mas com os efeitos para a sua própria imagem em no cenário pré-eleitoral, uma vez que o grande avalista de Kassab foi ele mesmo, José Serra.
Está correta a preocupação do governador. Olhando friamente o cenário, o DEM vai entrar na campanha eleitoral com um passivo de imagem enorme, tanto pelo episódio envolvendo José Roberto Arruda, único governador do partido, e os mensaleiros democratas, como também pela rápida e violenta queda na popularidade de Gilberto Kassab em São Paulo, antes mesmo do episódio da cassação.
A situação periclitante do DEM, principal aliado do PSDB, pode levar à formação de uma chapa em que os democratas apenas apóiem o tucanato, sem no entanto indicar o vice, mesmo que Aécio Neves decline a vaga de vice na chapa. Serra teria como companheiro alguém do PPS ou até do próprio PSDB, mas não um democrata, para não “sujar” a chapa.
O problema todo é que a imagem de alinhamento do PSDB com o DEM é muito forte e provavelmente será explorada na propaganda eleitoral de Dilma Rousssef ou de Ciro Gomes, se ele de fato concorrer à presidência da República, e não ao governo de São Paulo. Assim, a chance de Serra (ou qualquer outro candidato do PSDB) ser afetado pelos problemas do DEM é bastante alta.
Corretamente, Serra tem tentado se preservar no noticiário, deixando de falar sobre temas políticos para não expor as fragilidades. Em um mês, porém, se ele de fato se decidir pela Presidência, terá largado o governo do Estado e estará na rua, sem fazer campanha, oficialmente, porque ainda será proibido, mas trabalhando no convencimento dos eleitores. Este blog está muito curioso para saber qual vai ser a estratégia do PSDB desta vez. A questão “moral” não pegou em 2006 e em 2002 ninguém defendeu o governo do partido e o legado de Fernando Henrique Cardoso. Alguns colunistas têm escrito sobre Serra adotar a postura de “pós-Lula”, tal e qual Aécio vinha propondo, mas é difícil imaginar um “Serrinha paz e amor” desfilando na avenida sem responder à “desconstrução” de sua imagem, que certamente será feita pelo PT ou PSB. A falta de discurso é muito mais grave para a oposição, na humilde opinião deste blogueiro, do que propriamente a ausência de Serra no cenário neste momento, como acreditam alguns tucanos mais ansiosos. Em uma campanha, é preciso ter bem claro o que se vai dizer, qual é a mensagem. E isto parece estar fora de discussão no PSDB...

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Deus castiga quem cobiça

Excelente a história abaixo, reproduzida por Lucia Hippolito em seu blog. Vale a pena ler na íntegra.

Historinha mineira bem atual

Em 1930, terminado o mandato de Antônio Carlos Ribeiro de Andrada à frente do governo de Minas Gerais, foi eleito Olegário Maciel, presidente do Senado estadual (na República Velha, alguns estados possuíam Assembleia e Senado).
Acontece que Olegário já era bastante idoso. Aos 75 anos, enfrentou resistências ao seu nome, a começar por Antônio Carlos, que preferia um sucessor mais jovem -- e mais maleável.
A confirmação da candidatura de Olegário inaugurou uma disputa frenética pela vaga de vice na chapa -- por motivos óbvios. Ninguém esperava que ele concluísse o mandato de quatro anos.
A escolha recaiu sobre Pedro Marques de Almeida, então presidente da Assembleia Legislativa. Com 42 anos, Pedro Marques era também genro de Antônio Carlos, o que manteria o controle do grupo dos Andradas sobre o governo de Minas.
Pois com a vitória da Revolução de 30, Olegário Maciel foi o único governador de estado mantido no cargo -- todos os outros foram substituídos por interventores.
Pedro Marques renunciou ao cargo de vice-governador já em 1931 e foi ser prefeito de Juiz de Fora. Morreu em 1934, com 46 anos.
Quanto a Olegário, governou Minas com apoio total de Getúlio até morrer subitamente em 1933, já perto do final de seu mandato, com 78 anos.
Por isso, é prudente não ir com muita sede ao pote nas especulações sobre quem vai ser o vice na chapa de José Alencar, no caso de ele se candidatar ao governo.
Em Minas, nem sempre os prognósticos mais afoitos são os melhores.

Destino Manifesto

Do presidente Lula, em Goiânia:
"Por isso que o Brasil é importante no G20, é importante no G8, é importante no G3, é importante no G4. Cria um G que o Brasil está dentro. Não tem país mais preparado para encontrar o ponto G que o Brasil."
Este blog suspeita que o presidente tem alguma razão no que diz...

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Perguntar não ofende

O que os impolutos líderes do DEM e PSDB têm a dizer sobre a prisão de José Roberto Arruda, que até anteontem era cotado para vice na chapa de José Serra? Aliás, o governador falará sobre o assunto ou é mais um tema proibido das coletivas de imprensa? Bem, está aí a TV Brasil para fazer a perguntinha incômoda. Umazinha, como bem disse Janio de Freitas em artigo reproduzido no post anterior.

Serra vai ou fica?

Abaixo, dois artigos muito interessantes, ambos publicados hoje na Folha de S. Paulo, sobre a candidatura de José Serra à presidência da República pelo PSDB. Janio de Freitas vai direto ao ponto na polêmica criada a partir de artigo e declarações de Fernando Henrique Cardoso. E Ricardo Melo apresenta a ideia de que Serra, no momento certo, vai abrir mão da disputa e tentar a reeleição ao Bandeirantes.

Lendo os dois textos, é possível perceber uma complementariedade nas teses dos jornalistas, mas fica em aberta a questão: se Serra desistir, quem assume a candidatura tucana? Quem pensou em Aécio Neves, alternativa natural, pode estar enganado – se Serra desiste, é porque terá avaliado como muito difícil a vitória do PSDB nas urnas, e tal situação não seria diferente com Aécio. Geraldo Alckmin também não seria bom nome para marcar posição, até pela pouca consistência teórica, digamos assim.

No fundo, os tucanos só têm um nome consistente e capaz de aceitar o debate nos termos que o lulismo pretende levar na campanha eleitoral. Sim, quem pensou em Fernando Henrique Cardoso acertou na mosca. É muito difícil imaginar o ex-presidente na disputa eleitoral, mas a verdade é que ele seria o candidato ideal em uma situação crítica para a oposição, com moral até para “exigir” o sacrifício de Aécio Neves na condição de vice em uma chapa pura. Cardoso é muito mais qualificado para o debate público do que seus colegas de partido e se não tem grandes chances de vencer a eleição em função da alta rejeição popular que ainda perdura, daria uma canseira grande para Dilma e Lula.

O problema todo é saber se FHC teria o despreendimento de partir para mais uma disputa eleitoral, ainda que para perder, depois de uma carreira vitoriosa, com dois mandatos na presidência da República. A vaidade, como se sabe, é um complicômetro grande no ninho tucano.


Inferno astral
RICARDO MELO

SÃO PAULO - José Serra está diante de uma decisão política dramática. Lideranças tucanas dão como favas contadas a sua candidatura à Presidência da República. Já falam em comparar a biografia do ex-militante da Ação Popular com a da ex-militante da VAR-Palmares e colocam Serra em um tour país afora e Estado adentro para ampliar sua visibilidade -com direito a Madonna e recadinhos via Twitter.

Os resultados, no entanto, têm sido magérrimos. As pesquisas eleitorais, todas elas, exibem Serra na descendente e Dilma ladeira acima. Aliados do tucano alegam que a trajetória atual era esperada, uma vez que Dilma é candidata assumida, tem o apoio de um campeão de popularidade e conta com a máquina federal. Já os rivais veem uma tendência irresistível a favor da petista.
De todo modo, os lances mais recentes do xadrez eleitoral são desfavoráveis ao governador. O presidente do PSDB, Sergio Guerra, adora falar, mas, quando fala, gela a espinha dos correligionários. A entrada em cena do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, se fez algum barulho, irritou os tucanos que aceitam tudo, menos o que o FHC propôs: o tal debate plebiscitário com o governo Lula. No Congresso, a refrega mostra-se previsível e desanimadora, com oposição e governo trocando xingamentos.
Num cenário em que inclusive a meteorologia parece atrapalhar, Serra tem cada vez menos tempo para escolher entre uma possível reeleição estadual e o imponderável no plano nacional. Além dos números das pesquisas; da água que sobra na propaganda da Sabesp, mas falta nas torneiras de contribuintes; e da fragilidade do discurso do partido que o abriga, não escapa ao governador o fato de que o principal aliado do PSDB, o DEM, carrega o fardo de um megaescândalo de Brasília.
Serra nunca foi daqueles de ir para o sacrifício "em nome do partido", até porque um partido como o PSDB nunca faria isso por ele ou qualquer de seus caciques. Não será surpresa se, na hora H, o refúgio dos Bandeirantes falar mais alto.

Nos ombros de Serra
JANIO DE FREITAS

FHC, Sérgio Guerra e Tasso caíram na esparrela de Lula; quem pagará outra vez é o governador de São Paulo


POR MAIS QUE Lula avisasse do seu desejo de confronto plebiscitário com o PSDB, ainda assim Fernando Henrique Cardoso, Sérgio Guerra, presidente do partido, e Tasso Jereissati caíram na esparrela -e quem vai pagar outra vez por ideias que nunca teve é José Serra.
Uma das causas da limitação eleitoral de Serra em 2002 foi não expor sua divergência frontal com a política econômica anticrescimento de Fernando Henrique, só apoiada pelas classes alta e média alta (o que ficou um tanto esquecido). Com tal cautela, Serra omitiu de sua campanha os temas de maior interesse do eleitorado, que eram sua pretendida política econômica e os projetos sociais. Enquanto Lula aproveitou e explorou os dois temas por si e por Serra. Só de novos empregos seriam 10 milhões, e nem é possível lembrar de quantas reformas.
Ainda que da fraude à realidade seja o mesmo que da campanha ao governo, os feitos do governo Lula, atabalhoados e descriteriosos embora, deixam o governo de Fernando Henrique sem condições reais de comparação. Nem mesmo com os truques de inverdade desvendados na Folha por Gustavo Patu.
É, porém, com essa imensidão de incomparáveis que Fernando Henrique e seus dois acompanhantes identificam Serra para o eleitorado. E já o compelem a adotar na campanha, porque Lula e Dilma Rousseff não abandonam mais esse presente, o papel em que os três caíram. Então, ou Serra se omite outra vez e será criticado pelos próprios companheiros-candidatos do PSDB, ou pespega na testa corresponsabilidades que não tem e por muito de que discordava mesmo.
São notórias a velha competição entre Fernando Henrique e Serra, a relação muito precária entre Tasso Jereissati e Serra, e o desagrado de Sérgio Guerra com a maneira como Serra impôs sua (pré?) candidatura. Mas a mesma bomba duas vezes sobre a mesma vítima é um tanto excessivo. Inclusive porque José Serra parece não saber o que fazer.

Umazinha
Por falar em Serra, quando ele se queixa está, quase sempre, fora do tom e do momento. Sua queixa contra a insistência da TV Brasil, sobre o que diria da falta de água para 750 mil paulistanos, esqueceu-se de que a pergunta era incômoda, mas compensava um pouco o protetor silêncio de tantos meios de comunicação a respeito. Como de outras perversas sequelas, ainda tão vivas como sofrimento, das últimas semanas em São Paulo.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Sul pode virar espinho para Serra

Muito interessante e informativa a matéria abaixo, originalmente publicada no blog do jornalista Josias de Souza, da Folha de S. Paulo. Lendo a reportagem, surge a dúvida: em que região do país José Serra já conseguiu construir palanques fortes para dar suporte à candidatura presidencial?

Crises locais ameaçam os palanques de Serra no Sul

A região Sul converteu-se num pesadelo político para o tucano José Serra, presidenciável da oposição.
Os palanques que o tucanato idealizara para Serra no Rio Grande do Sul e Santa Catarina estão em vias de desmoronar.
No Paraná, uma queda-de-braço entre as duas principais lideranças do PSDB no Estado –Alvaro Dias e Beto Richa— estende-se além do conveniente.
Chama-se José Fogaça o mais novo problema de Serra. Prefeito de Porto Alegre, Fogaça vai às urnas como candidato do PMDB ao governo gaúcho.
Serra via em Fogaça um aliado estratégico. Porém, o prefeito pemedebê já cogita apoiar a candidatura presidencial de Dilma Rousseff.
Ouça-se o que disse Fogaça numa entrevista à Rádio Gaúcha, nesta terça (9):
“Se o PMDB nacional tomar essa decisão [de apoio a Dilma], não há como o partido regionalmente assumir, de maneira formal, uma outra decisão...”
“...Esta tem de ser a linha do partido aqui no Estado, seguir a linha adotada nacionalmente”.
As palavras de Fogaça têm cheiro de reviravolta. Soam depois de reunião privada que o prefeito manteve com a própria Dilma, na última sexta-feira (5).
O vaivém do prefeito está amarrado a uma conveniência local. Ele precisa do apoio do PDT-RS. Se fechar com Serra, corre o risco de perder o aliado.
Deve-se o estabelecimento da pré-condição ao ministro Carlos Lupi (Trabalho), mandachuva nacional do PDT.
Ou Fogaça abre o seu palanque para Dilma ou o PDT gaúcho cairá no colo de seu principal rival na disputa pelo governo, o petista Tarso Genro.
Assim, Dilma está prestes a obter no Rio Grande do Sul dois palanques: o do PMDB e o do PT, dois velhos e renhidos rivais na política gaúcha.
O apoio do PMDB a Dilma não é pacífico. Escute-se o presidente do diretório do PMDB em Porto Alegre, Fernando Záchia:
“Fogaça pode até ter vontade de se aliar a Dilma, mas é um processo muito difícil de construir internamente”.
Taticamente, Fogaça se diz fechado, por ora, com a candidatura presidencial do pemedebê Roberto Requião. Sabe que se trata de uma quimera.
E advoga que o PMDB gaúcho siga a decisão da convenção nacional, muito mais próxima do apoio a Dilma. Para desassossego de Serra, Fogaça avisa:
“[...] A convivência com a ministra Dilma foi altamente produtiva e boa para a cidade de Porto Alegre. Minha relação com Dilma e com Lula é muito boa”.
Fechando-se a equação favorável a Dilma, restará para Serra o palanque reeleitoral da governadora tucana Yeda Crusius, que as pesquisas indicam estar micado pelas denúncias de corrupção.
Em Santa Catarina, o tormento do tucanato também gira ao redor de uma denúncia de corrupção. Ali, o alvo é o vice-governador tucano Leonel Pavan.
Antes sólida, a tríplice aliança catarinense pró-Serra –PMDB, PSDB e DEM— se liquefez depois que Pavan foi denunciado à Jutiça pelo Ministério Público.
O governador pemedebê Luiz Henrique, candidato ao Senado, costurava uma candidatura única à sua sucessão.
Pelo PSDB, o nome cogitado era o de Pavan. Pelo DEM, o senador Raimundo Colombo. Pelo PMDB, Eduardo Pinho, presidente da legenda no Estado.
Nas últimas semanas, Luiz Henrique passou a admitir a hipótese de três candidaturas. Cada partido seguiria o seu caminho.
Significa dizer que o apoio a Serra, antes vitaminado pelo palanque tríplice, se pulverizaria. Pior: optando por Pavan, o tucanato iria à campanha local com a cara do malfeito.
Programou-se para esta quarta (10), uma reunião dos dirigentes catarinenses do PSDB, PMDB e DEM. Tentam colar os cacos do projeto inicial. Talvez já não disponham de goma.
No Paraná, Serra tenta pôr em pé a candidatura do prefeito tucano de Curitiba, Beto Richa. Mas o senador Alvaro Dias, também tucano, diz que o nome dele é melhor.
Na última sexta (5), sob mediação de Sérgio Guerra, presidente nacional do PSDB, os dois contendores tucanos desceram ao pano verde. Alvaro Dias puxou as suas fichas.
Disse que as pesquisas o favorecem. Levou ao seu blog a última sondagem do Vox Populi. Argumentou que, prevalecendo Richa, a vida de Dilma será facilitada no Paraná.
Por quê? Irmão de Alvaro, o senador Osmar Dias ensaia o lançamento de sua candidatura ao governo paranaense pelo PDT. Daria palanque a Dilma.
Mas Osmar informou a Sérgio Guerra e à própria Dilma que se o irmão for candidato, ele disputará o Senado, não o governo. E a candidata de Lula perderia o palanque.
Beto Richa não se deu por achado. Levou ao twitter uma pesquisa que lhe sorri. Foi feita por um instituto pouco conhecido fora do Paraná, o Radar.
Nesta quarta (10), Sérgio Guerra deve mediar novo encontro entre Dias e Richa. A hipótese de acordo é improvável.
Ou Alvaro Dias depõe as armas ou a disputa vai para a convenção, em junho. Nessa hipótese, prevalecerá Beto Richa, que detém o controle da máquina do PSDB-PR.
Embora tenha dado prazo ao irmão, a paciência do pedetista Osmar Dias tem limites. Prometeu aguardar até o final desta semana. Sobrevivendo o impasse, vai à disputa. E fechará com Dilma.
Assim, a formação dos palanques do Sul, que parecia um sonho dourado para a oposição, converteu-se num pesadelo que atormenta Serra e adoça as noites de Dilma Rousseff.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Um bom artigo de Reinaldão Azevedo

Este blog não costuma concordar com o que escreve o colega Reinaldo Azevedo, mas desta vez ele acertou na análise que fez sobre a pertinência do artigo de Fernando Henrique Cardoso - já sobre o conteúdo, é outra conversa. O fato é simples: ao trazer para o debate a comparação com o seu governo, Cardoso põe o PSDB na posição que Lula e o PT querem, pois a estratégia para eleger Dilma é precisamente esta - forçar a discussão entre as gestões de FH e Lula... Bobo, Fernando Henrique não é, nem Reinaldo Azevedo. Se o segundo está criticando o primeiro, conhecendo o antilulismo e antipetismo de Reinaldão, é porque o tiro de Cardoso veio mesmo na hora errada. A argumentação do jornalista é interessante, vale a pena ler. Abaixo, na íntegra, para os leitores do Entrelinhas.


Um artigo certo no momento errado
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010 | 17:31

O artigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no Estadão de domingo demonstrando por que não se deve ter medo do passado — ou do legado de seu governo — está correto quase do começo ao fim. Direi por que “quase” em outro post. Qualquer pessoa comprometida apenas com os fatos sabe que ele está certo. Vale a máxima: no governo Lula, o que é bom não é novo e o que é novo não é bom. Vejam lá a ministra Dilma com a cascata das reservas, grandes agora, pequenas antes. Os sucessivos superávits comerciais que permitiram que se chegasse aí derivaram, pro acaso, de ações volitivas do governo Lula? Ora, vão plantar literalmente batatas!

O texto de FHC está corretíssimo (com uma exceção), e ele é, no momento, talvez o político mais injustiçado na história brasileira. Há outros. Falo destes tempos. Parte do prestígio de Lula deriva da desconstrução intelectualmente canalha que se fez do governo anterior. Ponto parágrafo.

Mas acho — e duvido que o ex-presidente, inteligente como é, não atente para o fato — que ele acaba sendo contraproducente para os desafios do futuro ao publicar um artigo como aquele. Não preciso explicar por que isso acaba contribuindo para o jogo do PT. A chance de Dilma — A ÚNICA — ESTÁ EM DESAPARECER ENQUANTO… DILMA.!!! Ela só existe como um avatar de Lula. Goste-se ou não, a construção da figura do Demiurgo foi bem-sucedida. Demandará alguns anos até que seja devolvido à terra.

Os braços e franjas do petismo são longos. Estão na imprensa, por exemplo. Peguem qualquer um desses colunistas “isentos” por aí, e eles só serão capazes de falar mal do governo Lula ajoelhando-se antes do milho: falarão mal de FHC também. Ora, ainda que o petista fizesse uma bobagem antes feita pelo tucano, FHC não é mais presidente. Como diria Horácio, teremos de voltar ao tempo das musas, ao princípio de tudo, a cada que vez que formos analisar o presente? E quem deu a chance ao ex-presidente de satanizar os que o antecederam? Ele nem faria isso. Quando menos, por refinamento intelectual. Não! O tucano, que tirou o Brasil de um buraco histórico, não terá sua obra reconhecida nem pela maioria dos jornalistas, que ou são petistas ou temem a patrulha do partido.

Assim, se seu artigo contribui para, no futuro, repor a verdade em seu lugar, no presente, só serve para unificar o grito de guerra do PT. E Dilma aproveita para fazer de conta que tem voz própria. DIZER QUE ELA NÃO SABE FRITAR UM OVO NÃO É METÁFORA. É só um dado combinado com o fato de que ela é incapaz de articular um discurso coerente. Padece de uma falha básica de raciocínio, que pode ter efeitos dramáticos a depender do lugar que ocupe: não distingue o principal do secundário, a parte do todo. Seu discurso é como seus ovos remexidos. Não obstante, notem que ela saiu “liderando” a ofensiva contra FHC, como se tivesse voz própria. Mas isso ainda é o de menos: Dilma, avatar de Lula, se volta contra quem não está na disputa.

Ainda que o governo tucano não tivesse passado pela desconstrução, ele já está distante da memória. É evidente que boa parte dos eleitores se lembra mais dos “benefícios” dos dois mandatos de Lula. Mais: os anos, vamos dizer, verdadeiramente heróicos de FHC foram os dois primeiros, de consolidação do Real. A tática do confronto de passados, embora permitida, é coisa de vigaristas. Por isso mesmo, FHC deveria tomar cuidado para não acabar sendo instrumentalizado… pelo PT. Seu legado tem de ser defendido? Eu acho que tem. Mas há o momento certo para essa questão saltar para o primeiro plano.

Um artigo certo no momento errado.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Ou isto ou aquilo?

Do portal UOL:

Economia
Produção de veículos no Brasil no mês
cresce 31,6% em relação a janeiro de 2009


Do Blog da jornalista Míriam Leitão:

Veículos
Venda de automóveis cai 27,54% em janeiro


Mais uma vez, os dois títulos estão certos. A produção e a venda de automóveis cresceram muito em relação ao mesmo mês do ano anterior, mas declinaram em relação ao mês de dezembro. Dona Míriam sabe que dezembro é mês de Natal ou se esqueceu deste pequeno detalhe? Tem gente que acha que os leitores são todos um bando de antas...