terça-feira, 27 de julho de 2010

Luto

Abaixo, texto da Folha de S. Paulo desta terça-feira. Antes, dois poemas que ele gostava muito, do Manuel Bandeira e do Mário de Andrade. Perder o pai, depois de tanto tempo de batalha contra o câncer, não é mesmo nada fácil. Fica a saudade, muita, e também a certeza de que valeu a pena, apesar do sofrimento, pois as adversidades e a provação também revelam a força e o caráter das pessoas. E nesses últimos quatro anos, quando a doença começou a se agravar, ele nunca perdeu a esperança nem a vontade de lutar pela vida.

Cada coisa estava e está em seu lugar, sim, pai. A dor é grande, enorme, mas saiba que maior ainda é o orgulho por uma vida toda, pelo exemplo que não se vai, ao contrário, que já é cada vez mais presente.

Obrigado aos tantos amigos que estiveram ontem no velório e sepultamento e também ao doutor Antonio Carlos Buzaid e sua equipe, que desde 2006 o acompanhavam com uma garra indescritível. E vida que segue...



Consoada

Quando a Indesejada das gentes chegar
[Não sei se dura ou coroável],
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
[A noite com os seus sortilégios.]
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa.
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

***

Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade...

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade...

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.

***

LUIZ EDUARDO CERQUEIRA MAGALHÃES (1945-2010)

Uma vida ligada ao Santa Cruz

ESTÊVÃO BERTONI, DE SÃO PAULO

Dentro da sala de aula, Luiz Eduardo Cerqueira Magalhães era para os alunos o Eduardão, professor de matemática. Por ser grande, ter 1,91 m e voz grossa, aparentava ser muito severo. Mas, no fundo, era um brincalhão.
Logo após ter se formado em física pela USP, no final dos anos 60, ele começou a lecionar em colégios, como o Visconde de Porto Seguro.
Em 1969, casou-se com a psicopedagoga Maria Antônia, que conhecera na época da faculdade. No mesmo ano, entrou para o Santa Cruz, de onde não mais saiu.
O colégio no qual seguiu carreira, fundado em 1952 por religiosos, iniciou nos anos 70 um processo para que os padres abandonassem os cargos de direção.
A etapa se encerrou em 1993, quando Luiz Eduardo assumiu o posto de diretor da instituição, função que teve até a semana passada.
Paralelamente, deu aulas em faculdades, e, desde 1986, atuou no Conselho Estadual de Educação, que chegou a presidir. Sua vida, porém, foi mesmo o Santa Cruz.
Como diretor, priorizava a formação humanística dos alunos, que têm aulas de ética e filosofia. Construiu um teatro e, recentemente, levou até a escola o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, para falar sobre drogas.
Hoje, o Santa Cruz é o terceiro melhor colégio particular de SP, segundo dados do Enem 2009. Para ele, isso não dizia muita coisa - achava que a escola tinha que se nortear pela formação, e não pela posição num ranking.
Ontem, morreu aos 65, de câncer. Deixa viúva, quatro filhos e cinco netos. Também ontem foi seu enterro, em SP.

domingo, 11 de julho de 2010

Cadê o Álvaro Dias que estava aqui?

O gato comeu o quase-vice de José Serra. Sim, o senador Álvaro Dias anunciou que não vai mover um dedo para eleger Beto Richa, seu desafeto, para o governo do Paraná. Faz sentido, o rival do tucano é o irmão do senador, Osmar Dias. Engraçado lembrar que os blogs do tucanato garantiram que Álvaro faria campanha para Serr ano Paraná...

Pausa esportiva

Deu Espanha. Até que enfim acabou a chatice, a tal Copa do Mundo. Este blog não vê a hora do futebol voltar aos torneios sérios - Libertadores da América à frente. Como se sabe, o tricolor do Morumbi passou o mês treinando para o embate do ano - contra o Internacional. Fernandão e Dagoberto estão com fome de gol. Dia 28 deste mês e 5 de agosto, o duelo promete.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Jogo duro

As recentes pesquisas dos institutos Datafolha e Ibope animaram o tucanato ao mostrar um empate técnico entre o candidato à presidência do partido, José Serra, e a candidata do presidente Lula, Dilma Rousseff. Serra vinha perdendo fôlego e os novos números mostraram que ele continua forte após a rodada de propaganda na televisão dos partidos que compõem a sua aliança.
O jogo oficialmente começa amanhã, mas já faz muito tempo que a campanha começou. E desde o início, a tendência vinha sendo de crescimento de Dilma e estagnação de Serra. O que as pesquisas mostraram agora foi uma parada de crescimento de Dilma e ligeira recuperação de Serra. Tendo em vista a propaganda do tucano na televisão e rádio, faz todo o sentido.
É cedo, porém, para comemorações em qualquer dos lados da disputa deste ano. O empate ainda é mais favorável para Dilma porque revela a força do presidente Lula na campanha, porque a grande verdade é que ninguém jamais soube direito quem é a tal da Dilma, ou Vilma, ou ainda, a “muié” do Lula, como se diz em alguns estados do Nordeste. Serra está onde sempre esteve, Dilma cresceu bastante. O que vai acontecer daqui em diante é uma incógnita, pois a eleição deste ano carrega a grande novidade da política brasileira desde 1989: Lula não estará na urna eletrônica.
Sim, faz toda a diferença. O presidente, que hoje conta com a aprovação quase unânime dos brasileiros, sempre conseguiu mais de 30% dos votos (em 1989, só obteve este percentual no segundo turno, é bem verdade), de maneira que é, sim, correto dizer que um terço do eleitorado é fiel ao PT ou a Lula e percentual semelhante em geral vota contra o partido (ainda que aprovando a atual gestão). A eleição, portanto, será decidida pelos 30% mais volúveis, que esperam para decidir no último momento e não têm lá grande definição ideológica, no sentido estrito da palavra.
Ou seja, quem vai decidir a eleição o fará assistindo aos programas eleitorais e tomando o pulso da situação pelas conversas ao correr da campanha. É evidente que a propaganda terá força e também é óbvio que a maior exposição da candidatura de Dilma deve favorecê-la. Mas isto não é uma regra acabada, pois muitas vezes quem teve menos tempo, como o próprio Lula, venceu o pleito com boa folga. Esta campanha tende a ser particularmente acirrada e não é nenhuma novidade para ninguém que Serra é mais conhecido do que Dilma, tem uma carreira pública de maior exposição, e portanto larga na frente. Aparentemente, a ex-ministra já conseguiu tirar a diferença, está partindo para a campanha oficial em pé de igualdade com seu rival direto.
O que vem pela frente, portanto, é um jogo bem duro; não há aposta fácil neste momento. Será também um jogo em que quem errar menos ganhará mais. Agora é para valer, os candidatos podem sair às ruas e pedir votos. Até agosto, quando a propaganda eleitoral começa, se dá um momento de posicionamento das candidaturas. Este blog aposta que nada vai mudar muito até lá. A partir de setembro será possível de fato dizer se há favorito neste ano...

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Análise racional, do ponto de vista tucano

Abaixo, uma excelente e bem escrita análise do atual estágio da campanha eleitora, assinada bela blogueira Nariz Gelado. Vale a pena ler na íntegra, é um pensamento claro e honesto, bastante antenado. Ao contrário de outros blogueiros, que preferem se dedicar a esconder os problemas e fazer campanha, NG faz mesmo análise política, e das boas. Evidentemente, nem é preciso dizer que este blog discorda de boa parte das avaliações da colega. Mas recomenda a leitura.

Hora da verdade

Alguns persistentes – obrigada pela fidelidade -perguntam por que eu parei de postar.

Antes de qualquer coisa, há a questão do tempo. Neste último ano, um ritmo mais intenso de trabalho não está me permitindo atualizar o blog como antes. Também é verdade que o Twitter caiu como uma luva para este novo momento. Aqueles 140 toques podem não permitir profundidade, mas são melhores do que o silêncio absoluto. Mais do que isso: permitem que se faça muitas coisas em pouco tempo – opinar, saber dos amigos e debater brevemente a pauta do dia.

Mas o que realmente está pegando é que eu não tenho coisas muito agradáveis para dizer. Na verdade, sei que o que eu tenho a dizer vai desagradar a grande maioria dos leitores. Medo de perder, leitores? Não. Se fosse isso, era só seguir escrevendo elogios oposicionistas feito uma matraca – e, acreditem, eu sei fazer isso como poucos. O que eu me pergunto é se vale à pena perder as raras horas de lazer para comprar briga com quem superestima o poder da internet na conquista de votos – e que, por isso mesmo, sugere que a gente dê uma de avestruz e não aponte publicamente os erros da oposição.

Eu não tenho vocação para avestruz. Criei este blog em março de 2003 para dizer o que penso. E é assim que ele vai continuar. Mais lento em épocas em que não estou com tempo ou com paciência. Mas jamais servil a qualquer linha de pensamento que não seja a minha – ou a reboque de certa militância oposicionista que, pelo que ando vendo por aí, virou torcida apaixonada. Incapaz de ver os erros do time, mesmo quando as derrotas estão se acumulando. Preferem chorar sobre o leite derramado no final do campeonato do que apontar agora os erros que poderiam mudar o destino do time.

E porque não nasci para avestruz – e, mais ainda, porque concordo com a máxima rodriguiana de que “toda unanimidade é burra” – dedico as linhas abaixo a todos os leitores: aos que reclamam do meu silêncio e aos que preferem que eu me cale.

Vamos às verdades

1 – Sem Aécio Neves na chapa, perdemos Minas Gerais. E esqueçam as histórias da carochinha. Se o PSDB não conseguiu enquadrar o mineiro para aceitar a vice-presidência não conseguirá enquadrá-lo a trabalhar por um resultado diferente daquele obtido no segundo turno de 2006: 66% dos votos daquele estado foram, então, para Lula.

2 – Sem Minas, é prioritário buscar um vice que traga votos novos. Quem é ele? Não sei. Mas Álvaro Dias não é. Quem vota em Álvaro dias já votaria em Serra de qualquer maneira. Estou dizendo isso porque quero um vice do DEM? Não. Vou repetir para que fique bem claro: quero Aécio de vice – chapa pura, pois não? Tenho algo contra Álvaro Dias? Também não. Acho que é um dos bons quadros do PSDB. Mas ele não serve para vice porque oferece uma sobreposição de votos quando é preciso conquistar votos novos. É fácil falar isso sem indicar outro nome? Não, não é fácil. É triste. Principalmente quando penso que a obrigação de indicar outro bom nome que não Aécio nunca foi minha – e que quem deveria fazê-lo, ao que parece, não se preocupou com o assunto ao longo dos últimos quatro anos.

3 – Dilma é ruim de discurso? É péssima. Qual a influência concreta disso nas urnas? Quase insignificante, meus caros. O programa do PT na TV e as negativas de participar de debates e entrevistas já apontaram a linha a ser seguida pelo marketing da candidata: pouca exposição. O programa vai ser muito Lula – esqueçam o TSE, ok? -, muitas realizações de governo, muito jingle e pouca Dilma. E os debates? Claro, claro… Serra vai dar um banho nos debates. Mas informem-se sobre os índices de audiência dos debates – principalmente depois do terceiro bloco, quando a coisa realmente esquenta – , antes de contar com eles para virar qualquer tendência. Dilma gaguejando no Jornal Nacional funciona como piada interna da oposição. Mas desconfio que não lhe tire um voto.

4 – Dilma ontem agradou aos socialistas, hoje às socialites? Uma vergonha do ponto de vista ideológico, né? Tema sensacional para inflamar o debate em blogs e fóruns oposicionistas. Mas, no que diz respeito às urnas, é ponto positivo para ela que aprendeu, com louvor, a lição do “mestre” Lula: eleição se ganha dizendo o que as pessoas querem ouvir. Uma ideologia por dia é receita de sucesso eleitoral no Brasil. Não adianta chorar. Tem é que aprender como ser cara-de-pau assim – e como fazer isso melhor do que eles.

5 – As obras do PAC são fictícias? São. Mas espero que não deixem de falar disso nos programas. E não adianta só falar. Tem que ir até lá, mostrar quão fictícias elas são, DESDE A PRIMEIRA SEMANA DE PROGRAMA. Porque Dilma vai mostrá-las quase concluídas, lindas, bem filmadas. Aquela célebre frase de José Serra é uma síntese maravilhosa do jeito tucano de fazer campanha: “Quanto mais mentiras eles disserem sobre nós, mais verdades diremos sobre eles”. É um alento aos corações cansados de tanta baixaria eleitoral, certo? Mas, sinto dizer, sem qualquer efeito eleitoral se quem mente for mais competente em vender o peixe do que quem fala a verdade. A verdade não tem poder, por si só, de operar milagres. É por isso que o vulgo diz: “mais cedo ou mais tarde, a verdade aparece”. Na política, normalmente a verdade aparece mais tarde – tarde demais, arrisco dizer.

6 – O PT mente bem. Usa verossimilhança para mentir. Aprendeu, depois de perder três eleições presidenciais, que só se ganha eleição no Brasil mentindo. Querem ganhar falando a verdade? Ok, isso é mesmo maravilhoso do ponto de vista da ética – embora eu tenha minhas dúvidas sobre a concreta possibilidade de tal coisa funcionar. Mas, se insistem, acho bom encontrarem uma fórmula milagrosa para tornar a verdade mais atraente que a mentira. Estou sendo cínica demais? Pode ser. Fiquei assim depois de ver Geraldo Alckmin vestir uma jaquetinha cheia de logotipos para combater a boataria mentirosa das privatizações. Desculpe se a cena não me sai da cabeça. Mas é o exemplo mais acabado de como a verdade mal explorada é, por si só, impotente diante de uma mentira brilhante.

7 – Mentira, verossimilhança e estética luxuosa. Eis uma coisa que os marqueteiros petistas aprenderam como poucos. Desde o “advento” Duda Mendonça, eles sabem que ninguém quer ver pobre desdentado na televisão. A estética “jornalismo verdade” não conquista votos. Mais uma vez, vamos voltar a 2006: o pobre, nos programas do Lula, era bonitinho, bem arrumado, penteado e banhado. As imagens, coloridas ao exagero. Nunca me esqueço de uma fabriqueta de fundo de quintal – acho que de roupas para bebês – que foi mostrada com tamanha cor e capricho de produção que mais parecia a “Fantástica Fábrica de Chocolates”. Verdade? Não. Verossimilhança. O segredo é oferecer uma imagem na qual o pobre queira se projetar – e não o mundo cão que ele vê todos os dias no Jornal Nacional. Por que estou trazendo o tema? Porque tive calafrios ao assistir o último programa do PSDB. Tecnicamente perfeito, discurso afiadíssimo, o maldito do programa repetia a estética de 2006. Se não estiverem escondendo o jogo e insistirem nisso durante a campanha, estamos perdidos.

8 – Finalmente, as pesquisas. Há maracutaias? Há. Mas, queiram me desculpar, não há tanta maracutaia assim. Uma negociaçãozinha de margem de erro aqui e acolá até aceito. Dirigir um pouco a pesquisa mediante a escolha de determinadas cidades e bairros, ok. Agora, dizer que todos os institutos estão vendidos é um pouco demais para a minha cabeça. É inegável que Dilma cresceu. E as razões são óbvias: qualquer criatura minimamente esclarecida sabe que um governo com 70% de aprovação sugere uma eleição de continuidade. Brigar contra esta realidade é uma rematada burrice – principalmente quando ela se apresenta estável há mais de quatro anos. Achar que Lula não transferiria votos para Dilma foi uma aposta inacreditável de tão amadora. Portanto, se eu quisesse realmente ganhar esta eleição, partiria do pressuposto de que Dilma cresceu e que ela e Serra estão tecnicamente empatados. E trataria de descobrir os motivos da evidente queda de José Serra. Ficar dizendo que ela não existe é loucura. E, pelo-amor-da-santinha esqueçam o tracking. Muita gente acha que, em 2006, se divulgava tracking fictício favorável a Alckmin só para animar a torcida. Não é verdade. O que aconteceu, então, é que o tracking nunca batia com as pesquisas dos institutos. Portanto, não se fiem nesta ferramenta. Não me interessa se é porque ela é “um retrato de momento” e “não pode ser comparada com as pesquisas tradicionais”, blá, blá, blá”. Esqueçam esta merda porque ela não é confiável.

Tendo dito tudo o que penso a respeito da campanha presidencial tucana, aviso que não pretendo mais voltar ao tema. Vou, no máximo, remeter links para este post sempre que considerar adequado – e é por isso que os parágrafos foram numerados. Não tenho tempo, nem paciência, para ficar apontado os mesmos erros de quatro em quatro anos. Vou seguir, claro, falando de política. Mas de estratégia de campanha? Esqueçam. O PSDB que tome suas decisões e faça suas escolhas. De minha parte, vou me limitar a votar em Serra, pedir votos para ele e torcer para que, em outubro, a gente possa comemorar uma vitória.