domingo, 28 de março de 2010

A hora de Serra e Lula

José Serra vai bem, obrigado. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também vai muito bem, obrigado. É o que revela a presquisa Datafolha publicada neste final de semana. A popularidade do governo Lula bateu recorde histórico - não apenas em relação à performance do próprio Lula, mas de todos os presidentes pesquisados pelo instituto. E Serra abriu uma confortável vantagem de 9 pontos sobre Dilma Rousseff.

Afinal, o que esses números querem dizer?

A interpretação de pesquisas é sempre complicada, mas no que diz respeito a Lula e Serra, talvez as coisas sejam mais simples do que parecem. Lula vai bem porque a economia vai muito bem - empregos estão sendo gerados, a renda vai subindo, há crédito na praça. Em outras palavras, o povão está satisfeito porque o dinheiro está entrando e as possibilidades de consumo estão se ampliando. O Brasil é um país muito desigual e a carência de consumo das classes mais pobres é enorme. Para esta parcela da população, Lula resolveu muitos problemas, sobretudo o principal: deu condições para os pobres consumirem mais. Só que o governo também é aprovado por parcela do topo da pirâmide e da classe média, do contrário não chegaria aos quase 80% de aprovação verificados pelo Datafolha - e vale lembrar que este instituto não pesquisa a popularidade pessoal do presidente, apenas a do governo. A aprovação no topo e na classe média é mais sutil - no topo, ela se dá porque o presidente manteve um pragmatismo absoluto em relação os planos iniciais de seu partido, e na classe média, porque, ao contrário do que muita gente diz e pensa, ela também vem sendo beneficiada economicamente pelo atual governo.

E Serra? Por que o governador vai tão bem nas pesquisas? O que está provocando tamanha resiliência, que o mantém em primeiro lugar há tantos meses? Não, definitivamente, já não pode ser apenas o efeito do "recall", há algo mais e a base governista sabe disto. Serra não tem carisma algum, e se está na frente, não é apenas porque a imprensa adota uma postura simpática e até parcial em relação à candidatura tucana, como querem muitos petistas. Serra está na frente por uma razão muito simples: não é Lula quem está do outro lado. Se fosse, é óbvio que o governador paulista teria seus 25% ou até mesmo 30%, mas Lula teria certamente mais de 50%, com folga. O problema tem nome e sobrenome: Dilma Rousseff. A escolha do presidente, ele mesmo sabe disto, é uma aposta de alto risco. Lula nunca deixou outra liderança se sobressair durante seu governo e sua história partidária, ele sempre foi o líder e comandante. Escolheu uma mulher forte e determinada, mas que jamais disputou eleição, a primeira será para presidência da República.

Não é fácil carregar uma candidata assim. Claro que a campanha nem começou e Dilma tende a subir quando o povão perceber que ela é a candidata de Lula, e não Serra. Só que em política as coisas não são tão simples, transferir votos é possível, mas sempre difícil. Serra já cedeu e não vai tentar fazer um Aloysio Nunes Ferreira candidato ao governo porque sabe que Geraldo Alckmin é muito mais forte, tem vôo próprio e votos, especialmente no interior de São Paulo... O PT tinha outros nomes mais vinculados a Lula e ao PT - Eduardo e Marta Suplicy, Jaques Wagner, Tarso Genro e até mesmo José Dirceu - este fora da disputa pelas regras impostas por sua cassação do mandato de deputado federal. Lula, porém, optou por uma solução diferente: se vencer com Dilma, a vitória é exclusivamente sua; se perder, a derrota será exclusivamente dela, e o diálogo com Serra não é algo que vá dar muita dor de cabeça para o atual presidente, embora, é óbvio, este não seja o cenário com o qual ele trabalhe.

Dilma pode ganhar a eleição? Sim, pode, mas o favorito é José Serra. Este blog acha mais provável uma vitória da ministra, mas o governador de São Paulo é muito forte e deverá fazer bonito na eleição, mesmo que perca. A menos que Marina Silva tenha uma performance pífia e Ciro Gomes desista da candidatura, a eleição deverá ser decidida no segundo turno. E aí tudo tende a esquentar bastante, os erros e acertos das equipes de marketing político vão contar muito e poderão ser fundamentais em uma eleição que tende a ser bastante acirrada.

A postura do presidente de deixar de lado a hipótese de um terceiro mandato deveria ser hoje objeto de louvação dos oposicionistas, porque sem dúvida alguma nove entre dez analistas políticos vaticinariam a vitória de Lula já no primeiro turno, fosse ele hoje o candidato petista e qualquer que fosse o adversário. Mas Lula preferiu deixar o barco correr e refutou a hipótese de mais uma reeleição. Não é pouca coisa, e a verdade é que a grande chance de Serra reside justamente na falta de "persona" de sua adversária. É evidente que quando a campanha começar, o "fator Lula" deve pesar bastante. Serra sabe disto e já sinalizou que em Lula, não baterá. Vai tentar se eleger mostrando aos brasileiros que sua biografia é mais confiável do que a de Dilma. Resta saber se isto é suficiente...

terça-feira, 9 de março de 2010

Bancoop, tucanos e o eterno retorno

A denúncia envolvendo João Vaccari Neto em um suposto desvio de recursos do Bancoop foi comemorada com grande entusiasmo no PSDB. Neste momento em que o DEM chafurda na lama, um caso de corrupção no time petista, envolvendo um alto quadro do partido, era tudo que os tucanos queriam.

A festa no QG de José Serra, porém, deve ser analisada com cuidado. Se tudo que o PSDB tem, mais uma vez, contra o PT é o discurso da corrupção, podem escrever, o partido vai se lascar na eleição deste ano. Repetir a estratégia de Geraldo Alckmin de 2006 será um verdadeiro tiro no pé, não apenas porque já não deu certo no passado, mas porque a candidata do presidente Lula foi escolhida a dedo justamente por não ter nenhum envolvimento em qualquer tipo de escândalo que envolveu o PT no passado recente. Ninguém vai achar as digitais de Dilma no caso do mensalão, do dossiê dos aloprados, casos Valdomiro Diniz ou caseiro Francenildo...

A questão da corrupção só faz diferença mesmo quando o povão acha que a situação econômica está muito ruim e os políticos estão desviando recursos que fazem falta na hora da feira, do supermercado. Foi assim com Collor de Mello, por exemplo. Se não houvesse a brutal recessão de 1991/92, é provável que o ex-presidente não tivesse sido impedido. Em 1982, quando o país passou por outra recessão brava, a questão da corrupção apareceu com força, tanto que a oposição ao regime militar, então no seu ocaso, fez barba, cabelo e bigode na eleição para governo de Estados e Senado. Foi nesta época que o ex-governador Paulo Maluf ganhou a fama de “ladrão” e o ódio de toda uma geração. O que Maluf fez ou deixou de fazer é o de menos, a verdade é que a população estava irritada com a falta de dinheiro no bolso.

Agora, porém, a situação é bem outra. A economia está crescendo, emprego e renda estão em alta e o povão vai consumindo cada vez mais. Um caso como o do Bancoop, de suposto desvio de recursos para a campanha de 2002 soa como algo distante, velho, superado. Se isto é tudo que o PSDB tem para o momento, Dilma é mesmo favoritíssima para a sucessão de Lula.