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Mathias Alencastro: Democracia em Vertigem é o filme certo na hora certa

Excelente resenha do colunista da Folha, íntegra abaixo:

Indicado ao Oscar é irmão mais novo de outra produção da Netflix, 'Winter on Fire: Ukraine's Fight for Freedom'.

A indicação ao Oscar de “Democracia em Vertigem” recompensa a notável capacidade de adaptação dos seus produtores às mudanças aceleradas da cena política brasileira na última meia década. Petra Costa e a sua equipe transformaram, com o sucesso que conhecemos, um relato sobre o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff na primeira narrativa sobre a emergência da ultradireita no Brasil.
“Democracia em Vertigem” é, antes de tudo, o documentário certo na hora certa. Ele coroa o primeiro ano do encontro entre o bolsonarismo e o mundo liberal, que Hollywood pretende representar culturalmente.
No que pode ser visto como um dos muitos paradoxos do bolsonarismo, o presidente que promove a demolição das instituições culturais também é um promotor involuntário da arte brasileira. Uma boa ilustração desse fenômeno é o “efeito Laura Carvalho”, ou a propensão do presidente a aumentar a receita das obras que ele critica.
Nesse sentido, a escolha de Petra Costa por uma narrativa política clara e direta sobre a crise da democracia não é só característica fundamental da sua obra, como uma das chaves do seu sucesso; é uma das razões para a indicação de seu filme ao Oscar.
No começo do século, os trabalhos de Michael Moore transformaram profundamente a relação entre documentário e política. Com o seu estilo caótico e ao mesmo tempo ultradirigista, ele enfiou uma mistura indigesta de fatos duvidosos pela goela dos seus alegres espectadores.
Em um punhado de trabalhos, Moore tornou obsoleto o estilo solene e ligeiramente sonolento de produções anteriores e acabou tendo papel considerável na mudança da opinião pública sobre a guerra no Iraque. No entanto, Hollywood, que levou o realizador ao topo, acabou por condená-lo por crime de sacrilégio: questionar a veracidade dos ataques do 11 de Setembro. A liberdade de expressão tem sempre os seus limites, até na indústria mais emblemática do sonho americano.
Moore saiu do jogo, mas o documentário ganhou status de superprodução. Nos anos 2010, continuaram abordando temas sociais de uma forma muito mais elegante e contida. O Oscar de documentário de 2016, por exemplo, premiou o debate sobre raça e política, mas também houve polêmica. “I Am Not Your Negro” foi acusado de omitir a sexualidade do personagem principal, James Baldwin.
“Democracia em Vertigem” se insere em um gênero de documentários sobre crises políticas em países em desenvolvimento, muito em voga nos anos 1970, quando a Hollywood da oposição da guerra ao Vietnã promovia debates radicais sobre capitalismo e colonialismo.
Mas “Democracia em Vertigem” é sobretudo o irmão mais novo de outra produção da Netflix, “Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom”, sobre a Euromaidan, a onda de protestos desencadeada em novembro de 2013 pela decisão do governo ucraniano de suspender as relações com a União Europeia. O movimento culminou na queda do governo, em fevereiro 2014.
Apesar das diferenças, é difícil não ver paralelos entre os dois filmes. “Winter on Fire” é acusado de apresentar o movimento social como espontâneo, livre de qualquer influência política e institucional. O papel de forças estrangeiras é praticamente ignorado, apesar de a União Europeia e os Estados Unidos terem apoiado ativamente os manifestantes e de a Rússia ter defendido o regime até o último minuto.
“Democracia em Vertigem”, pelo contrário, tenta analisar em detalhe as diferentes dimensões, internacionais, institucionais e políticas do conflito, assumindo o risco de oferecer uma interpretação de uma história em curso e de, por isso mesmo, criar inúmeros mal-entendidos.
No final das contas, foi o abandono da busca obsessiva pela verdade fatual que permitiu aos dois filmes chegarem ao Oscar. O testemunho entusiástico de uma história humana antes de ser política tornou os acontecimentos de um país distante e desconhecido perfeitamente palatáveis para o progressista médio americano.
O sucesso de “Winter on Fire” e de “Democracia em Vertigem” também mostra como narrativas completamente diferentes podem ser tachadas de progressistas em Hollywood. O documentário ucraniano serviu de referência à oposição a Nicolás Maduro, que alguns alucinados associados à esquerda brasileira ainda veem como vítima de um golpe à la Dilma Rousseff. O debate esquerda-direita do Brasil é um péssimo guia para entender a política de Los Angeles.
Resta saber se a estratégia de Petra Costa de fazer da cerimônia do Oscar um palanque para a luta pela democracia no Brasil vai agradar em Los Angeles. A Academia adora filmes políticos, mas abomina a politização da cerimônia, sobretudo na era da globalização.
Talvez porque a prioridade não seja salvar a humanidade, mas salvar os negócios, o Oscar tenha deixado de fora das indicações deste ano o multipremiado “A First Farewell”, que trata do drama vivido pelos uigures no Xinjiang, provavelmente o tema mais politicamente sensível da China junto com Hong Kong.
Maior consumidora e investidora estrangeira em filmes americanos, a China exerce grande influência na indústria cinematográfica através da sua capacidade de controlar a entrada de filmes no mercado nacional. Por isso, Hollywood faz de tudo para agradar as autoridades de Pequim. Se Petra Costa denunciar o regime brasileiro com a estatueta na mão, o que impedirá uma realizadora de um filme sobre a China de fazer o mesmo no futuro?
A questão não é se um filme é político, mas se algo não é político na indústria do cinema.



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