Pular para o conteúdo principal

Postagens

Se não tem jeito, ajeitemos

Após mais de um ano de medo, crise econômica e luto, abrir o jornal é um ato de autoflagelação. Pessoas enlouquecendo na quarentena e perdendo emprego, negócios falindo, gente passando fome, maridos matando esposas, pais e mães matando os filhos. Frequentemente me sinto como uma formiga num tsunami e acho que nada pode ser feito. No último "Roda Viva", contudo, a diplomata norte-americana Samantha Power disse algo que cutucou minha desesperança. Joe Biden só conseguiu a maioria no Senado —e, portanto, a capacidade de governar— por conta de jovens negros da Geórgia que saíram de casa em casa tocando campainhas e convencendo outros jovens negros a votar. Parei um pouco pra pensar e me lembrei de pessoas que estão na rua agora mesmo, no Brasil, tocando as campainhas, escreve Antonio Prata na Folha de São Paulo, em artigo publicado domingo, 2/3. Continua a seguir. Por exemplo: o pessoal da campanha “Tem gente com fome, dá de comer”. São mais de 200 organizações, unidas na “Coaliz
Postagens recentes

A desconstrução de Paulo Arantes

Há pouco mais de um mês, Paulo Eduardo Arantes, professor aposentado do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), leu uma entrevista em que o ex-BBB Lucas Koka Penteado afirmava que não se “discute com racista, a não ser que ele queira se desconstruir”. Embora esteja lançando um livro intitulado Formação e desconstrução: uma visita ao Museu da Ideologia Francesa, Arantes não sabia que a palavra “desconstrução” tinha entrado no vocabulário de parte de jovens progressistas ativos nas redes sociais para descrever uma espécie de reforma moral que consiste em despir-se dos próprios preconceitos e reconhecer seus privilégios de classe, raça, orientação sexual etc. Arantes entendia desconstrução à moda francesa, conforme pregou Jacques Derrida (1930-2004), um dos filósofos “pós-modernos” que ganharam os holofotes intelectuais depois que o marxismo perdeu parte do brilho e as classes operárias quase sumiram do discurso político. Grossíssimo modo, a desconstrução é uma técni

O cartão de visita de Renan Calheiros na CPI da covid

Na manhã da terça-feira 27, o senador Renan Calheiros (MDB-AL) revisava o discurso que faria durante a instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) aberta para investigar a atuação do governo federal no combate à pandemia da Covid-19. Ao reler trechos do texto, que começara a ser redigido duas semanas antes, o senador alagoano ligou para um assessor. “Olha, dá um jeito de incluir no discurso que, em um único dia da pandemia, a Covid chegou a matar mais brasileiros do que em toda a Segunda Guerra Mundial.” E disse ainda: “Faz, também, alguma referência a Pinochet”, concluiu. Naquele momento, oficialmente, Renan Calheiros estava impedido pela Justiça Federal do Distrito Federal de assumir a relatoria do colegiado. Uma liminar concedida na véspera pelo juiz Charles Renaud Frazão de Moraes, da Segunda Vara Federal Cível da Seção Judiciária do Distrito Federal, atendia ao pedido da deputada bolsonarista Carla Zambelli (PSL-SP) e afastava o parlamentar da CPI, sob a alegação de que

Flávia Arruda, bendito fruto entre os militares

No dia 26 de março, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), reunia em sua residência um pequeno grupo de aliados e o então ministro da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos. Tratavam de assuntos banais quando uma notícia mudou o rumo da prosa. Como se anunciasse uma hecatombe, Ramos se dirigiu aos presentes naquela sexta-feira para relatar uma informação que chegara pelo telefone. O general havia se afastado para ouvir a novidade e voltara pasmo. O ministro da Defesa, Fernando Azevedo, seria substituído pelo presidente Jair Bolsonaro. A troca provocaria mudanças em cascata no governo, inclusive com a promoção do próprio Ramos à Casa Civil. Recuperado do susto, o general ouviu um gracejo: já poderia abandonar a reunião, pois não era mais o responsável pela articulação com o Congresso. Após algumas risadas, começaram ali mesmo a levantar nomes para a Secretaria de Governo. O primeiro da lista, elencado por Lira, era o senador Eduardo Gomes (MDB-TO), líder d

Uma análise da economia de Getúlio a Dilma

É consensual a avaliação de que o governo de Dilma Rousseff foi um fracasso do ponto de vista econômico. O PIB registrou desaceleração, a trajetória de queda dos juros não se sustentou, a arrecadação tributária minguou em troca de nada e a Nova Matriz Econômica se revelou uma sucessão de equívocos. O consenso termina quando se examinam as causas do malogro. Na análise liberal, a presidente se afastou da agenda ortodoxa e negligenciou o peso do mercado, contrário à sua orientação - daí o resultado negativo. Numa interpretação à esquerda, no entanto, os erros derivam do fato de o Partido dos Trabalhadores não ter ido mais fundo nas mudanças propostas. É isso o que se argumenta, com consistência, em “A Economia Brasileira: de Getúlio a Dilma - Novas Interpretações”, que reúne ensaios de 16 economistas mais alinhados com o desenvolvimentismo, escreve Oscar Pilagallo no Valor, em texto publicado dia 30/4. Vale a leitura e continua a seguir.   “O processo de desenvolvimento promovido e coord

Bolsonaro oferece 400 mil mortos ao lúmpen-milicianato

A instalação da CPI da Covid mexe com os bofes de Jair Bolsonaro. Agride o seu senso de onipotência —injustificado segundo um crivo objetivo, mas compreensível se visto por lentes clínicas. O golpista de primeira hora, que nunca precisou de comissão de inquérito ou de oposição organizada para pregar o rompimento da ordem —como provam os atos antidemocráticos que patrocinou já em 2019—, não aceita que sua obra seja questionada. Os, até agora, mais de 400 mil mortos são o seu grande legado ao lúmpen-milicianato que o aplaude. A política sempre deve ter precedência na análise da vida pública, embora os dados de personalidade não possam jamais ser ignorados. Uma leitura mais aberta de Maquiavel sugere que a “fortuna” e a “virtù” —a história herdada que condiciona alternativas e as escolhas ditadas pela personalidade— também podem ter um enlace negativo. Em vez de surgir o Príncipe, eis que aparece o ogro, que a democracia tem de esconjurar. Ou morreremos todos, escreve Reinaldo Azevedo em

Estratégias para não repetir o maior erro da eleição de 2018

 As principais políticas públicas do país estão no caminho errado. O desempenho do Ministério da Saúde no combate à covid-19 foi um dos piores do mundo. A área ambiental foi destruída pelo antiministro e, enquanto ele continuar no cargo, o mundo não vai acreditar nas promessas feitas pelo governo brasileiro. O MEC abandonou os governos subnacionais e as escolas na pandemia, o que vai aumentar a desigualdade entre os alunos, no curto e no longo prazo. A lista de equívocos é longa e assustadora, e sua origem inicial está no processo eleitoral de 2018. Como evitar a repetição desse erro é uma das tarefas fundamentais para sair das trevas atuais. Várias razões explicam as origens desse erro eleitoral, mas uma delas foi estratégica: a campanha foi muito curta e, sobretudo, houve poucos debates públicos com os principais candidatos, o que ficou ainda pior por causa da ausência do vencedor da eleição na controvérsia direta contra seus oponentes. Em defesa do presidente eleito pode-se dizer qu

O que aconteceu com a Clarice de Silêncio dos Inocentes?

Há 30 anos, a agente do FBI Clarice Starling pedia ajuda a Hannibal Lecter, eternizando o psiquiatra canibal como um dos “serial killers” mais assustadores da história do cinema. Em comemoração ao aniversário da estreia de “O Silêncio dos Inocentes”, lançado no Brasil em 17 de maio de 1991, uma série de TV aposta na trajetória pessoal de Clarice, ambientando seu “spin-off”, como é chamada uma obra derivada de outra, um ano após os eventos do thriller, vencedor do Oscar de melhor filme em 1992. A rede CBS, que exibe atualmente a série nos EUA, vende “Clarice” como a “história não contada” da agente saída da imaginação do escritor Thomas Harris. Retratada nos livros “O Silêncio dos Inocentes” (1988) e “Hannibal” (1999), a personagem continua aqui a atrair “monstros e loucos” por causa de seu brilhantismo ao traçar o perfil psicológico de assassinos e, ao mesmo tempo, sua vulnerabilidade diante dos mesmos, escreve Elaine Guerini no Valor, em resenha publicada dia 30/4. Continua a seguir.

Como Elon Musk se tornou um empresário que vem mudando o mundo

Bilionário, polêmico e inovador, Elon Musk não é o primeiro nem o único de sua espécie. O empresário, que nasceu na África do Sul, é o mais recente integrante de uma extensa galeria de empreendedores cujos negócios provocaram rupturas na maneira como trabalhamos, vivemos e nos movemos. Eles criaram companhias tão marcantes que sua influência ultrapassou o limite dos negócios. Alguns se transformaram em personagens da cultura pop. Musk segue a rota de contemporâneos como Bill Gates, da Microsoft; Mark Zuckerberg, do Facebook; e Jeff Bezos, da Amazon. A lista também inclui figuras do passado cuja contribuição se perpetua até hoje. É o caso de Henry Ford (1863-1947), o inventor da linha de montagem. Aos 49 anos, Musk é mais conhecido por duas companhias: a Tesla, de carros elétricos, e a SpaceX, com a qual pretende reduzir o custo das viagens espaciais e colonizar outros planetas. Parece ambicioso o suficiente para toda uma vida, mas o bilionário tem outro punhado de interesses: a SolarCi

O clima está mudando

Abertura da Newsletter da LAM Comunicação. O presidente Jair Bolsonaro parece ter levado a sério a frase do compositor Chico Buarque, em outro contexto, que dizia que o governo brasileiro falava grosso com a Bolívia e fino com os Estados Unidos. Em discurso na quinta-feira (22) na Cúpula de Líderes sobre o Clima, o presidente brasileiro recuou em tudo que dizia sobre o tema e prometeu adotar medidas que reduzam as emissões de gases do efeito estufa. Falou fino, e não deixa de ser irônico que o presidente norte-americano Joe Biden tenha deixado a reunião justamente no momento em que Bolsonaro iria falar.  Biden não é bobo, sabe perfeitamente do alinhamento do atual governo brasileiro com o de seu antecessor, Donald Trump, e talvez por este motivo não tenha prestigiado o discurso. Mas o mais importante não foi o recuo, precedido de uma “costelada”, almoço em solidariedade ao ministro Ricardo Salles, que tem sido muito criticado na gestão do Meio Ambiente, em especial por conta do aumento

Cúpula do Clima revelou que o Brasil encolheu

Em dezembro de 2005, o mundo se reunia em Hong Kong para uma conferência sobre o comércio. Ali, regras seriam negociadas para permitir a construção de um sistema internacional mais equilibrado e uma base mais favorável para o desenvolvimento das economias em desenvolvimento. Os olhos do mundo estavam fixados numa aliança improvável de países emergentes, o G-20, que insistia que as placas tectônicas do planeta precisavam começar a se mover. Nunca contei essa história. Mas descobri que os principais ministros do grupo se reuniriam antes da conferência dar início para costurar uma estratégia. A meta era frear eventuais gestos da Europa e EUA para tentar manter seus indecentes subsídios agrícolas. Também descobri que a sala reservada para a reunião tinha paredes extremamente finas e pensei que, se ocupasse uma sala ao lado e permanecesse em absoluto silêncio, poderia ouvir o que aquela reunião traria. Funcionou, escreve Jamil Chade no El País, em matéria publicada dia 23/4. Continua abaixo

Rodrigo Pacheco, o equilibrista

Em 21 de fevereiro, o presidente do Congresso, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), sentou-se à cabeceira da mesa de jantar retangular da residência oficial do Senado, em Brasília, acompanhado de dois parlamentares de campos opostos. À direita de Pacheco, estava Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho primogênito do presidente Jair Bolsonaro. À sua esquerda, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), líder da oposição e crítico ferrenho do Palácio do Planalto. O convite para esse encontro surgira alguns dias antes. “Randolfe, sei como é a sua relação com Flávio, mas aceitaria ir a um jantar com ele na residência oficial para discutirmos detalhes do projeto (que alterava as regras de aquisição das vacinas)?”, sugeriu o presidente do Senado, numa ligação telefônica. “Contanto que você não queira que eu beba vinho com ele, é claro que aceito”, respondeu o parlamentar da Rede, visto como um adversário intragável pela família Bolsonaro. A reunião entre os dois desafetos políticos, regada a café, água, suco e pão