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As revelações de Eduardo Cunha sobre os bastidores do impeachment de Dilma

Há cerca de um ano, o ex-pre¬sidente da Câmara Eduardo Cunha saía da penitenciária Bangu 8 para sua casa na Barra da Tijuca, benefician¬do-se do direito à prisão domiciliar. De volta ao lar, mesmo assolado por alguns problemas de saúde, Cunha se dedicou obsessivamente a uma tarefa que iniciou ainda na cadeia: passar a limpo um dos capítulos mais importantes da história recente da política brasileira. Em outras palavras, sua participação — fundamental e decisiva — na queda de Dilma Rousseff. Com a ajuda da filha mais velha, Danielle Cunha, de 33 anos, ele colocou no papel boa parte do que fez, falou e ouviu durante a ação que comandou. Esse relato materializou-se nas 797 páginas de Tchau, Querida — O Diário do Impeachment, que será lançado pela editora Matrix no dia 17 de abril, de forma a coincidir com o aniversário de cinco anos da sessão da Câmara que expulsou Dilma do Palácio do Planalto. Embora seja uma narrativa obviamente enviesada (o autor tende a ser benevolente com seu comport
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A vida que ele levou: Contardo Calligaris (1948-2021)

“Quando perguntam como eu gostaria de morrer, respondo que fazendo a experiência da minha morte. Gostaria que alguém fizesse comigo os cuidados paliativos, ou seja, me deixasse sem dor, mas perfeitamente acordado para eu me sentir morrendo. Isso é viver de uma maneira interessante, inclusive o momento da morte.” Relendo a declaração feita por Contardo Calligaris em 2019, dá para dizer que ele realizou seu desejo. Viveu e morreu de forma interessante e intensamente. Para ele, a felicidade não poderia ser um ideal que muitas vezes se transforma em nosso imperativo moderno. A vida pode valer a pena mesmo nos momentos de dor e sofrimento, como agora, quando nos despedimos deste italiano nascido em Milão, em maio de 1948, e que, depois de muitas viagens, tornou-se brasileiro por amor e opção, escreve Robson de Freitas Pereira em obituário publicado no site da revista Época dia 2/4. Continua a seguir.  Contardo contava que o gosto pelo questionamento dos mistérios do mundo levou seu pai, um

Os bastidores da maior crise militar no Brasil em 40 anos

A saída do general Fernando Azevedo e Silva do Ministério da Defesa foi engatilhada na sexta-feira 26 de março, acertada no domingo 28 e comunicada no início da tarde de segunda-feira 29. A conversa que formou a convicção do presidente aconteceu no domingo, quando ele foi à casa do general Walter Braga Netto, ministro da Casa Civil, para ver se o amigo havia se recuperado do mal-estar que o levara a uma internação hospitalar durante sua viagem de férias a Maceió. Lá também estava o ministro-chefe da Secretaria de Governo, o general Luiz Eduardo Ramos, que mora no mesmo prédio. Foi durante a visita que o presidente avisou de sua disposição de apressar a saída de Azevedo e Silva e de incluí-lo na dança de cadeiras na Esplanada dos Ministérios que planejava para o dia seguinte. Braga Netto ficaria no lugar de Azevedo e Silva, Ramos iria para a Casa Civil. Para o lugar de Ramos, Bolsonaro já havia pensado em algumas opções, mas se concentrou no nome da deputada Flávia Arruda (PL-DF), indic

Como as empresas estão lidando com a morte em tempos de pandemia

José Carlos Alves de Souza era, na descrição do filho Rodrigo Alves, um líder de estilo tradicional, centralizador, daqueles que dão a palavra final. Dono da rede de restaurantes Ponto Chic, onde em 1922 havia sido criado o famoso sanduíche Bauru, o empresário de 71 anos foi acometido pela covid-19 em fevereiro. Morreu no início de março. Rodrigo, 42, da terceira geração da família que adquiriu a marca em 1978, teve de tomar a frente dos negócios. “É lógico que dá uma insegurança enorme na gente”, diz ele, dividindo-se entre manter a saúde financeira de um empreendimento profundamente afetado pela pandemia, o engajamento da equipe de 110 funcionários e até mesmo o controle de qualidade da comida que era exigido pelo pai. “Eu não tenho o mesmo paladar que ele tinha, vamos ter que arrumar outra alternativa.” Rodrigo conta que passa o dia todo monitorando os assuntos que eram do pai, os e-mails, telefones, pagamentos, as senhas. “A atual situação de crise econômica não permite nem que eu

O desencontro entre o poder e Bolsonaro

Uma certa frequência, nos jornais, de artigos que remetem a política ao tema da formação da personalidade do presidente da República indica preocupação com o desencontro entre o poder e o poderoso. O problemático desencaixe entre a pessoa no poder e a instituição que o define suscita mais diagnósticos do que interpretações. É um modo de compreender os fatores extrapolíticos da política quando ela sai do padrão que lhe é próprio. O que é um fator de alarme com a distorção do processo político, o poder confundido com o mando pessoal. Sugere a quem envereda por essa linha de análise que podemos estar em face de um desvio comportamental e não apenas em face de um projeto político anômalo. Se o agente dominante da primeira socialização do presidente foi o pai que o induziu a optar pela carreira militar, como é ressaltado nas análises, teve no quartel a segunda socialização, desdobramento da primeira. Nos dois momentos há indicações de insuficiências de socialização para as solicitações plur

Mandetta: Bolsonaro quis um tratamento político genocida para a pandemia

Luiz Henrique Mandetta atravessou os momentos de extrema tensão da primeira onda do coronavírus no Brasil, quando era ministro da Saúde, sem nenhum medicamento para estabilizar o humor, com abstinência alcoólica e determinado a colocar um ponto final no tabagismo. Dormia uma média de três a quatro horas por dia. Media cada palavra, cada gesto. Hoje, não se furta a chamar de “genocida” a política do presidente a quem serviu entre janeiro de 2019 e abril de 2020. Por causa de uma agenda cheia de lives, reuniões e debates que impôs um tempo rigorosamente cronometrado para a entrevista, Mandetta, de 56 anos, se apresenta para este “À Mesa com o Valor” já tendo almoçado. Apenas bebe água. Ele está no Colégio Salesiano Dom Bosco, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, onde estudou. Quando se aproxima do computador, está vestido de branco, e a cor contrasta com a pele bronzeada e os cabelos escuros. A tela mostra uma sala ampla e, atrás da cadeira onde ele está sentado, há um grande quadro do s

A quem interessa a alta dos juros?

Nas últimas semanas, tanto aqui como nos Estados Unidos, muitas vozes se levantaram para anunciar que a inflação, em breve, estará de volta. Os mercados tremeram, as bolsas caíram e aqui o dólar se valorizou. EUA e Brasil são os dois países com maior número de mortes por covid no mundo. Somados, podem chegar ao trágico número de 1 milhão de mortos. Nos EUA, a vacinação está finalmente a pleno vapor, e a economia já dá efetivamente sinais de recuperação. No Brasil, a segunda onda da pandemia se agrava, bate recordes de pessoas contaminadas e de mortos. Apesar da resistência do governo federal, governadores e prefeitos foram, mais uma vez, obrigados a fechar o comércio e as atividades não essenciais. Tenta-se evitar que a superlotação dos hospitais deixe pessoas morrerem sem atendimento. Depois de uma queda de mais de 4% do PIB no ano passado, quando se imaginava que a economia fosse começar a se recuperar, assistimos a um novo mergulho recessivo. Faz sentido falar na volta da inflação n