Pular para o conteúdo principal

Brazil Journal: Sete lições da Suécia para o Brasil

Muito interessante a reportagem, vale a leitura.

Como pensa o país que é uma fábrica de unicórnios
Anna Chaia
ESTOCOLMO — Muita gente tem buscado conhecimento em missões técnicas rumo a Israel, à China e até frequentando festivais “woodstockianos” como a SXSW em Austin, que este ano recebeu impressionantes 1.500 brasileiros.
Mas talvez um país que nos sirva de exemplo — ainda que pouco celebrado — seja a Suécia, uma verdadeira fábrica de unicórnios, perdendo apenas para o Vale do Silício.
A Suécia não é óbvia: o brasileiro não vem aqui com frequência, não tem voo direto, faz frio boa parte do ano — enfim, é um destino fora de mão mesmo para quem está acostumado a passar férias na Europa.
A Suécia não é hypada, nem quer aparecer. Mas o país é berço de inúmeras startups que atingiram valuations de US$ 1 bi em pouco tempo.
Aqui nasceram o Spotify, a Kings (criadora dos games Minecraft e Candy Crush) e o Skype. E, entre as que se tornaram multinacionais há décadas estão a H&M, Volvo, Saab, Eletrolux e Ikea.
Malas prontas, embarquei para cá com um grupo de 30 empresários e executivos para descobrir o que este país menor que a Bahia e com apenas 10 milhões de habitantes tem de tão especial.
Abaixo, as principais lições que a Suécia oferece ao mundo, e que poderiam inspirar o Brasil.
• Pensamento Global: o país é 100% bilíngue. O inglês se tornou obrigatório nas escolas no final da década de 40. As crianças são alfabetizadas em inglês e sueco. Não tem filme infantil dublado e nem adulto com legenda. Entenderam que o inglês abre portas, constrói caminhos. O conjunto ABBA nasceu aqui; o quarteto sueco, que canta em inglês, foi a banda de maior sucesso na década de 70. Aliás, até hoje faz sucesso através de musicais na Broadway e filmes produzidos por Hollywood.

• Espírito Viking: Os vikings eram famosos por sua visão corajosa e fatalista, o que os transformava em um povo que aceitava os riscos naturalmente. O espírito de Odin, Thor, Lagertha e a guerreira Bika estão muito presentes na cultura das startups suecas. Ouvimos e vimos citações como “mais do que vencer, vale uma boa luta”, ou “somos ousados e ambiciosos, mas sabemos a diferença entre visão e alucinação”. Em visita à matriz do Spotify, vimos um organograma diferente do que estamos acostumados, usando o conceito de squads. Ao invés do CEO no topo, o que tinha era o OBJETIVO que o time tinha que perseguir. Abaixo dele, ao invés de várias caixinhas com diretores, estavam as OPORTUNIDADES. Abaixo delas, ao invés de gerentes, estavam as SOLUÇÕES. Mais do que um organograma, uma visão clara de onde querem chegar.

• FIKA, a hora do cafezinho: fenômeno social, os suecos acreditam que momentos de pausa ajudam no sucesso e crescimento da empresa. É a hora para “limpar a mente”, mas também o momento em que brotam novas ideias que resolvem problemas que eles encaram na frente do computador. Aqui, o coffee break não é para falar mal do chefe, até porque ele está junto nestas paradas técnicas. A cultura sueca é pouco hierárquica e bastante próxima. São paradas de até 15 minutos, duas vezes por dia para tomar um café e comer um kanelbulle, tradicional bolinho de canela para adoçar o brainstorming informal de todo o dia.


• #tamojunto: sim, aquele hashtag comum nas redes sociais está impregnado na cultura sueca. Com somente 10 milhões de habitantes, todos são fundamentais para o desenvolvimento do país. De um lado, homens e mulheres dividem tarefas e posições, próximos da tão sonhada equidade. A Suécia é hoje o terceiro pais no ranking global mais próximo de alcançar a igualdade de gênero. Do outro lado, há uma rede de segurança invisível que estimula as pessoas a se arriscar sem medo, pois se tudo der errado você terá o apoio emocional dos amigos e familiares, mas também o suporte financeiro do governo. Visitamos a Vinnova, um hub do setor público para ajudar startups decolarem e depois de ver tantos exemplos reais, percebi que aqui o governo senta lado a lado com o setor privado. Num slide da missão da empresa estava escrito: “queremos encorajar um ambiente que recompense a experimentação, penalize a inércia e reduza o custo da falha”. Afinal, nenhuma empresa morre de experimentação.


• Humildade/Postura de aprendiz: Numa das empresas que visitamos, havia um enorme painel na entrada com a frase: eu sou o único estudante, todos os demais são meus professores. Dizem que estão sempre aprendendo. Existe também uma tal “lei de Jante”, informal, que diz: “Não pense que você é especial ou que você é melhor do que nós”, um lembrete constante para descer do salto alto, ou do pedestal. Aqui, o sistema de governo é a monarquia, mas ninguém fala e nem cultua o rei, nem a rainha. (Outra curiosidade é que se costuma tirar os sapatos antes de entrar dentro de casa, algo comum no Japão.)
• Confiança: a Suécia é um país neutro, que não entrou na Segunda Guerra, e eles consideram que isso foi o gatilho para o desenvolvimento além das fronteiras. Com uma Europa destruída pela guerra, os suecos se tornaram produtores de vários setores para atender a demanda dos vizinhos europeus. Com abundância de confiança, a Suécia construiu muito bem sua reputação. Confia-se no governo e na comunidade ao seu redor. Poucos sabem, mas é aqui que estão os servidores backup do Google, Facebook e Microsoft.

• Futuro presente: que tal seu filho se chamar Urso (Björn) ou então Lobo (Ulf)? Estes são nomes comuns na Suécia. Amantes da natureza, 70% do país é floresta, e há um enorme respeito ao meio ambiente. Tanto que 99,5% do lixo gerado aqui é reciclado, o maior índice do mundo. Várias empresas que visitamos tem logo na recepção um painel com as 17 metas de desenvolvimento sustentável definido pela ONU. E isso não é só teoria. Eles me contaram qual foi o presente mais pedido no Natal do ano passado. Boneca, TV, Videogame, Celular? Nada disso. O presente número um na Suécia foi uma roupa de brechó, de segunda mão. Uma bela prova de que se podem construir negócios de bilhões em harmonia com o meio ambiente.

Foram tantos insights, palestras, interações e provocações durante esta semana que fiquei com o sentimento de que, aqui, é o lifestyle que gera um ambiente inovador, e não o contrário, como no Silicon Valley. Como diria Magnus Lindvist, um showman futurista que nos brindou com uma performance: “vocês querem competir ou criar?”

Pensamento global, espírito aventureiro, curiosidade pela opinião dos outros, colaboração, humildade, confiança de que ninguém vai te roubar a ideia, além da criação que não degrada o meio ambiente; isso tudo junto é a alquimia das competências para se criar um unicórnio.
Anna Chaia foi presidente da Samsonite, da L’Occitane e da Swarovski no Brasil. Hoje, é mentora de empreendedores na Endeavor e conselheira da Vivara.




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

No pior clube

O livro O Crepúsculo da Democracia, da escritora e jornalista norte-americana Anne Applebaum, começa numa festa de Réveillon. O local: Chobielin, na zona rural da Polônia. A data: a virada de 1999 para o ano 2000. O prato principal: ensopado de carne com beterrabas assadas, preparado por Applebaum e sua sogra. A escritora, que já recebeu o maior prêmio do jornalismo nos Estados Unidos, o Pulitzer, é casada com um político polonês, Radosław Sikorski – na época, ele ocupava o cargo de ministro do Interior em seu país. Os convidados: escritores, jornalistas, diplomatas e políticos. Segundo Applebaum, eles se definiam, em sua maioria, como “liberais” – “pró-Europa, pró-estado de direito, pró-mercado” – oscilando entre a centro-direita e a centro-esquerda. Como costuma ocorrer nas festas de Réveillon, todos estavam meio altos e muito otimistas em relação ao futuro. Todos, é claro, eram defensores da democracia – o regime que, no limiar do século XXI, parecia ser o destino inevitável de toda

Abaixo o cancelamento

A internet virou o novo tribunal da inquisição — e isso é péssimo Só se fala na rapper Karol Conká, que saiu do BBB, da Rede Globo, com a maior votação da história do programa. Rejeição de 99,17% não é pouca coisa. A questão de seu comportamento ter sido odioso aos olhos do público não é o principal para mim. Sou o primeiro a reconhecer que errei muitas vezes. Tive atitudes pavorosas com amigos e relacionamentos, das quais me arrependo até hoje. Se alguma das vezes em que derrapei como ser humano tivesse ido parar na internet, o que aconteceria? Talvez tivesse de aprender russo ou mandarim para recomeçar a carreira em paragens distantes. Todos nós já fizemos algo de que não nos orgulhamos, falamos bobagem, brincadeiras de mau gosto etc… Recentemente, o ator Armie Hammer, de Me Chame pelo Seu Nome, sofreu acusações de abuso contra mulheres. Finalmente, através do print de uma conversa, acabou sendo responsabilizado também por canibalismo. Pavoroso. Tudo isso foi parar na internet. Ergue

OCDE e o erro do governo na gestão das expectativas

O assunto do dia nas redes é a tal negativa dos Estados Unidos para a entrada do Brasil na OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Enquanto os oposicionistas aproveitam para tripudiar, os governistas tentam colocar panos quentes na questão, alegando que não houve propriamente um veto à presença do Brasil no clube dos grandes, a Série A das nações. Quem trabalha com comunicação corporativa frequentemente escuta a frase "é preciso gerenciar a expectativa dos clientes". O problema todo é que o governo do presidente Bolsonaro vendeu como grande vitória a entrada com apoio de Trump - que não era líquida e certa - do país na OCDE. Ou seja, gerenciou mal a expectativa do cliente, no caso, a opinião pública brasileira. Não deixa de ser irônico que a Argentina esteja entrando na frente, logo o país vizinho cujo próximo governo provavelmente não será dos mais alinhados a Trump. A questão toda é que o Brasil não "perdeu", como o pobre Fla-Flu que impe